domingo, 20 de junho de 2010

Café


Era um sonho distante? Era a sensação mais intensa que ele poderia viver e que nunca poderia ser repetida?

Em uma tarde comum e fria. O corpo de um homem desconhecido apareceu caído em um bar. Ele estava gelado e imóvel, aparentemente, morto. As pessoas no local, curiosas, levantaram as tradicionais perguntas: “quem é ele”, “de onde ele veio” e “ele está vivo”?

Outro desconhecido caminhou em direção ao primeiro, levando consigo uma fumegante xícara de café com leite.

A fumaça deslizou pelas narinas do homem no chão, aquecendo aquele corpo gelado. E aquele corpo gelado que estava duro e inanimado como uma rocha reagiu. Ele ganhara vida.

— Beba esta xícara de café, meu filho. — pediu o homem seu Salvador, que lhe deu um sorriso, virou-se e saiu do bar com seu dever cuprido.

Ele não sabia quem era e nada sobre o seu passado. Apenas sabia que desejava beber aquela xícara de café, como se fosse um instinto de sobrevivência.

Tomou o primeiro gole. A primeira vez que bebera café com leite na vida. O calor do café aqueceu seu corpo inteiro e ele sentiu-se cheio de vida. O sabor doce do café também não se limitou ao seu estômago, fluiu por seu corpo e invadiu sua mente e coração.

Era um homem novo, jovem, que queria compartilhar da sua alegria gerada por sua primeira dose de café. Conheceu pessoas, fez amigos e curtiu aqueles momentos de felicidade vivenciados pela primeira vez desde que tomara café.

O tempo foi passando e o café da xícara foi acabando, mas alguém sempre colocava mais café na xícara. Em algumas ocasiões, a própria xícara enchia sozinha como mágica. E durante este tempo, o café foi mudando de gosto e temperatura.

Poucos traziam café com leite quente. Algumas traziam apenas café preto com açúcar. Muitos traziam café preto, frio e sem açúcar. Um café amargo, difícil de beber.

O homem absorvia aquilo que o café lhe oferecia. Ele era um viciado em café. Seu instinto animal sabia que o café era aquilo que dava vida a ele e que, sem café, ele poderia perdê-la e tornar-se um corpo gelado e imóvel caído no chão novamente.

No início, o café era doce, quente, saboroso. Com o tempo, ele experimentou a frieza e a amargura e ela também espalhou-se por seu corpo atingindo seu coração.

Mais e mais café. Mais café gelado e amargo.

Não existia mais aquele prazer todo do primeiro gole de café. Era um sonho distante? Era a sensação mais intensa que ele poderia viver e que nunca poderia ser repetida?

Triste e amargurado, aquele homem bebia o café como um escravo. Sabia que não podia simplesmente deixar de bebê-lo se quisesse. Não era permitido por ninguém e nem mesmo ele se permitia parar.

Mais um gole, mais um gole, mais um gole de café amargo e frio. Dentro daquele coração amargo, restava-lhe a esperança de que um dia o café voltaria a ser doce e quente. Não era mais tão criança para achar que aquele momento de prazer seria eterno, mas desejava curti-lo até que não houvesse mais café e ele pudesse agradecer pessoalmente ao seu Salvador que lhe deu a vida.

Um comentário:

  1. Cara, que lindo. Esse café pode representar tantas coisas... o Salvador pode ser tantas pessoas...

    Esse texto tem que ser lido e relido, pois a cada vez, chego a uma conclusão. isso quer dizer que está perfeito.

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