domingo, 27 de junho de 2010

Na umbra


Nascemos da ponta de um círculo e quis o destino que fizéssemos parte de um mesmo grupo. Eu sou a Terra e você é o Sol.

Um universo cheio de dúvidas e nós ali, perdidos, tentando encontrar o sentido de alguma coisa. Foi então que você começou a brilhar e atrair a atenção daqueles planetas e outros astros que vagavam pelo Universo.

Sol, o centro do universo. Todos circulando você, encantados por seu brilho, sua luz, seu calor.

Mercúrio e Vênus foram os primeiros a tentar algo, mas seu calor extremo eliminou qualquer forma de vida dentro deles. Plutão, por sua vez, foi ignorando, vivendo toda a frieza do seu zero quase absoluto. Preferi manter uma distância segura de você para não me queimar no fogo da paixão.

Você me iluminava no meio daquele Universo escuro e assombrosamente calado e confuso. Você transmitia o seu brilho em mim que eu refletia nos rios e no topo das montanhas nevadas. Você me deu vida e me permitiu gerar vida.

Mas no meio do nosso caminho havia um astro, havia um astro no meio do nosso caminho.

De protagonista à coadjuvante. Ela também queria sentir o seu brilho, o seu calor, não importa. Ela ficava me circulando como se fosse a nova dona do pedaço. Temi ficar à sua sombra.

A Lua fez questão de me mostrar que recebia a sua luz através de suas fases. Ela refletia intensamente a sua luz durante minhas noites mais escuras. Ela puxava as minhas marés com extrema violência, deixando-me perturbado. Ressaca.

Vagando no espaço. Então houve o dia em que a Lua finalmente conseguiu me pôr a sua sombra. Eclipse solar. Umbra, penumbra. Eu não quero o meio-termo, eu quero o intenso. Sol, lance em mim toda a sua luz, sem penumbra se você quer que eu seja seu. Lua, lance em minha toda a escuridão deste universo, a umbra, se a escolhida do Sol for você.

Os planetas alinhar-se-ão.

2012 chegará
Sua sombra sobre mim, a Lua projetará
Viverei na mais profunda escuridão
Um meteoro virá na contra-mão
E contra mim, se chocará
Minhas formas de vida, ele dizimará
Uma nova era glacial iniciar-se-á
Uma dor insuportável em meu coração

Estrelas, elas testemunharão
As lágrimas de prata do vice-campeão.


domingo, 20 de junho de 2010

Café


Era um sonho distante? Era a sensação mais intensa que ele poderia viver e que nunca poderia ser repetida?

Em uma tarde comum e fria. O corpo de um homem desconhecido apareceu caído em um bar. Ele estava gelado e imóvel, aparentemente, morto. As pessoas no local, curiosas, levantaram as tradicionais perguntas: “quem é ele”, “de onde ele veio” e “ele está vivo”?

Outro desconhecido caminhou em direção ao primeiro, levando consigo uma fumegante xícara de café com leite.

A fumaça deslizou pelas narinas do homem no chão, aquecendo aquele corpo gelado. E aquele corpo gelado que estava duro e inanimado como uma rocha reagiu. Ele ganhara vida.

— Beba esta xícara de café, meu filho. — pediu o homem seu Salvador, que lhe deu um sorriso, virou-se e saiu do bar com seu dever cuprido.

Ele não sabia quem era e nada sobre o seu passado. Apenas sabia que desejava beber aquela xícara de café, como se fosse um instinto de sobrevivência.

Tomou o primeiro gole. A primeira vez que bebera café com leite na vida. O calor do café aqueceu seu corpo inteiro e ele sentiu-se cheio de vida. O sabor doce do café também não se limitou ao seu estômago, fluiu por seu corpo e invadiu sua mente e coração.

Era um homem novo, jovem, que queria compartilhar da sua alegria gerada por sua primeira dose de café. Conheceu pessoas, fez amigos e curtiu aqueles momentos de felicidade vivenciados pela primeira vez desde que tomara café.

O tempo foi passando e o café da xícara foi acabando, mas alguém sempre colocava mais café na xícara. Em algumas ocasiões, a própria xícara enchia sozinha como mágica. E durante este tempo, o café foi mudando de gosto e temperatura.

Poucos traziam café com leite quente. Algumas traziam apenas café preto com açúcar. Muitos traziam café preto, frio e sem açúcar. Um café amargo, difícil de beber.

O homem absorvia aquilo que o café lhe oferecia. Ele era um viciado em café. Seu instinto animal sabia que o café era aquilo que dava vida a ele e que, sem café, ele poderia perdê-la e tornar-se um corpo gelado e imóvel caído no chão novamente.

No início, o café era doce, quente, saboroso. Com o tempo, ele experimentou a frieza e a amargura e ela também espalhou-se por seu corpo atingindo seu coração.

Mais e mais café. Mais café gelado e amargo.

Não existia mais aquele prazer todo do primeiro gole de café. Era um sonho distante? Era a sensação mais intensa que ele poderia viver e que nunca poderia ser repetida?

Triste e amargurado, aquele homem bebia o café como um escravo. Sabia que não podia simplesmente deixar de bebê-lo se quisesse. Não era permitido por ninguém e nem mesmo ele se permitia parar.

Mais um gole, mais um gole, mais um gole de café amargo e frio. Dentro daquele coração amargo, restava-lhe a esperança de que um dia o café voltaria a ser doce e quente. Não era mais tão criança para achar que aquele momento de prazer seria eterno, mas desejava curti-lo até que não houvesse mais café e ele pudesse agradecer pessoalmente ao seu Salvador que lhe deu a vida.