domingo, 28 de fevereiro de 2010

Os macacos


Darwin estava correto! O homem indiscutivelmente veio do macaco.

Os macacos podem pertencer a diferentes raças. Eles podem ser brancos, negros, índios, amarelos. Estas diferenças servem de pretexto para que alguns macacos acreditem ser melhores do que os outros.

Os macacos podem pertencer a diferentes classes sociais. Eles podem ser mendigos, pobres, ricos, milionários. Estas diferenças servem de pretexto para que alguns explorem os outros.

Os macacos podem adorar deuses e profetas diferentes. Eles podem ser católicos, judeus, mulçumanos, budistas. Estas diferenças servem de pretexto para alguns ataquem os outros.

Os macacos podem ser diferentes fisicamente. Eles podem ser altos, baixos, gordos, magros, belos, feios. Estas diferenças servem de pretexto para alguns discriminem os outros.

Os macacos podem ter idades e sexualidades diferentes. Eles podem ser homens, mulheres, crianças, heteros, gays. Estas diferenças servem de pretexto para que alguns acreditem receber um tratamento e respeito diferenciados dos outros.

Apesar de todas estas diferenças, são todos macacos.

Os macacos não têm educação. Coçam as partes íntimas em público, arrotam, soltam gases, falam aos berros, interrompem os outros macacos enquanto eles falam, furam filas, estacionam nas vagas para idosos e deficientes físicos, deixam o celular ligado no cinema, não respeitam a faixa de pedestres...

Os macacos são maldosos. Eles inventam fofocas, espalham fofocas, consomem fofocas, fazem piadas de mau gosto, ridicularizam, mentem, sentem prazer da desgraça alheia, querem saber quem morreu no telejornal do meio-dia.

Os macacos se alimentam de lixo. Eles se reúnem na frente da TV para assistir as tragédias urbanas, escutam músicas vulgares, vestem os trapos da moda e gastam suas moedas-banana para pagar e criar mais dívidas para impressionar a macacada.

Os macacos são a base da pirâmide, são a massa, a maioria da população. Os macacos têm o poder. Os macacos são o poder. Eles elegem os sucessos da música e da TV. Eles elegem o macaco-rei que irá explorá-los e viver luxuosamente enquanto muitos macacos famintos o chamarão de “Sua Majestade”. Os macacos se acomodam em suas árvores em ruínas rezando e depositando a sua esperança de dias melhores “nas mãos de Deus”.

Os macacos são as engrenagens que movem o mundo para trás. Eles nada veem, nada ouvem, nada dizem. Eles não se importam em seres explorados e em consumir lixo. Eles não querem mudar para melhor. Eles se contentam com muito pouco. Agradar os macacos é muito fácil. O macaco quer bananas? Dê bananas ao macaco!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Beleza e nada


Um dia eu olhei para o desejo, mas o desejo sequer olhou para mim. Eu estava fora dos padrões.

Bom dia, desejo. Eu vejo você por onde quer que eu olhe, na TV, nas revistas, nos outdoors, no cinema, no shopping. É impossível não se apaixonar pela beleza de seu rosto, seu sorriso perfeito, sua pele macia, seu cabelo brilhoso, seu corpo sarado.

Um dia eu olhei para o desejo, mas o desejo sequer olhou para mim. Eu estava fora dos padrões.

Foi um duro golpe que abalou o meu ego e minha autoconfiança. Nunca me achei tão feio e tão desinteressante. Eu queria ser um avestruz e enfiar a minha cabeça no chão.

Mas eu não queria me conformar em ser uma pessoa feia e desinteressante pelo resto da vida. Comecei então a construir a minha beleza, ignorando a beleza exterior e construindo a minha beleza interior.

As pessoas ao meu redor ficavam impressionadas com tanta inteligência, mas mesmo assim eu não era uma pessoa atraente, não era um desejo. Por que será que ninguém enxergava a minha beleza exterior. O conto “A Bela E A Fera” não comoveu ninguém? Era apenas hipocrisia?

Passei a odiar ainda mais o desejo, sendo agressivo com aqueles que admiravam o desejo e com ele mesmo. Aprendi a ser rude e sarcástico na hora de atacá-lo. Eu queria a revanche por ter sido rejeitado.

Gritei:
― Você para mim é o exemplo de que beleza e nada é a mesma coisa.

Ele não entendeu. Fiquei frustrado. Que droga!

...

Mas a quem eu quero enganar? O fato é que eu ainda desejo o desejo, mesmo que eu não seja um igual. E eu sou um frustrado, um recalcado por não estar dentro dos padrões. Acho que se eu fosse fútil, ou parasse de rejeitar o que foi rotulado de fútil, eu seria fútil e seria mais feliz...

Pois é, eu realmente gosto de apanhar e de ter meu coração arrastado pelo asfalto escaldante e sujo da Guiné-Bissau...



Versão completa do vídeo acima no YouTube.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Com medo de Sofia


Como eu tenho medo da verdade, eu prefiro viver no conforto da minha ignorância.

Eles chegaram cheios de saber e temi que eles tivessem o poder de fazer os cegos enxergarem de uma cegueira que me mantém no poder. Eu hei de enviá-los à fogueira.

Criei todo um universo, estórias fantásticas, o bem vencendo o mal, justiça divina, penas severas, tudo muito bem elaborado para me transformar no ser mais imaculado do mundo e ser sempre o Senhor da Razão.

Mas as ovelhas negras fugiram do rebanho e foram procurar a verdade, o saber. Descobriram brechas, contradições. Enviei os meus melhores lobos-maus para caçá-las, irritá-las, amedrontá-las com o meu livro aberto na página das punições.

Eu morro de medo, repilo-o fortemente, a última palavra é minha, sempre minha. O poder é meu, só meu e de mais ninguém. Eu me faço de vítima, digo que você está possuído por demônios, que você é mau, não acredita em nada e que seu castigo será horrendo.

E saio correndo, convoco os meus seguidores para confundir você. A maioria está sempre certa, certo? Não venha tentar fazer enxergar. Ninguém quer enxergar. A ignorância nos conforta e nos faz tão bem... Estamos bem assim. Então sai para lá, eu não quero saber. Eu vou me livrar de você. Xô, xô!

Sabedoria e superioridade assustam os fracos e ignorantes.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Mais além


É difícil não associar a felicidade às pessoas ao nosso redor. Precisamos de pessoas, o difícil é encontrar as pessoas corretas.

Durante a nossa vida, conhecemos milhares de pessoas, mas apenas algumas delas se tornarão os nossos melhores amigos ou affairs. Buscamos pessoas especiais que nos darão apoio em momentos difíceis. Será que nós já não encontramos pessoas assim e não percebemos, ou pior, ignoramos?

Você pode dizer:
― Mas tem tanta gente neste mundo. Como poderemos saber?

Nós criamos uma espécie de filtro. Filtramos as pessoas e também idealizamos aquelas pessoas que “servem” para nós, levando em consideração os nossos gostos, expectativas e a nossa personalidade.

Às vezes ficamos tão focados dentro do perfil que procuramos que acabamos tomando-o como verdade. O que foge do ideal não presta, portanto, o nosso filtro sentencia: descartável.

Descartamos as pessoas porque não temos paciência para conhecê-las mais a fundo. Acreditamos cegamente em nossos rótulos e em nossas teorias mirabolantes sobre o “porquê de as pessoas agirem de tal maneira”, mesmo que tenhamos acabado de conhecê-la há cinco minutos atrás.

Você já deve ter conhecido uma pessoa que a princípio considerava insuportável, mas que hoje, com a ajuda do tempo, descobriu estar errado sobre ela, correto? Claro que isso já deve ter acontecido! Mas o que fez você mudar de ideia? A convivência?

Sim, a convivência nos força a conhecer as pessoas mais a fundo. Ela mostra que os nossos conceitos de “pessoa certa para mim” nos limitam demais, nos fazem fechar os olhos e não enxergar que pessoas fora do nosso ideal podem também ser interessantes. É uma questão de dar uma chance e de dar-se uma chance.

― Ah, mas tem tanta gente no mundo e os meus filtros me ajudam tanto...

Tomemos cuidado com os nossos filtros, ideais e rótulos. Além de nos limitar a conhecer um tipo muito específico de gente, eles podem ser enganosos. Eles podem tornar a nossa busca por conhecer gente interessante mais cansativa e frustrante.

Então que tal largá-los um pouquinho? Será que você conseguirá descobrir a magia do “conhecendo-me, conhecendo-te”? Você está disposto? Você está disposto a enxergar mais além?