domingo, 24 de janeiro de 2010

Infanticídio


E mais uma criança havia sido morta. A mídia nada noticiou. Casos assim eram bastante comuns e não despertavam mais o interesse das pessoas.

Era uma vez uma sociedade onde as crianças não eram bem-vindas. Elas não tinham muito tempo de vida e morriam pouco a pouco a cada ano, em um processo lento e doloroso. Para muitos, isto era natural, era uma dessas “coisas da vida” e nesta sociedade, esperava-se que todos fossem se tornar infanticidas. Havia os infanticidas homicidas e os infanticidas suicidas nela.

Os homicidas eram aqueles que matavam as crianças. Eram pessoas amarguradas, frustradas, tristes, egoístas. Eles o faziam ao destruir sonhos, através de atos ou argumentos. Diziam que a felicidade é uma ilusão e que a infelicidade é um destino certo. Não conseguiam esboçar um sorriso e a alegria alheia era ofensiva. E sempre que podiam, passavam a perna em alguém para poder tirar alguma vantagem.

Havia sinceridade nas crianças. Elas falavam, diziam e agiam de acordo com o que sentiam. Havia brilho no olhar das crianças. Elas conseguiam enxergar o que era realmente encantador. Havia felicidade nas crianças. Elas conseguiam sorrir sem precisar de grandes motivos. Havia pureza nas crianças. Elas não socializavam por puro interesse.

Gritaram: “A criança está sorrindo, arranquem-lhe todos os dentes! Ela deverá ser uma de nós, um corpo vivo de alma morta. Deverá crescer e tornar-se artificial como todos nós”.

Os infanticidas suicidas enxergavam toda essa maldade e não conseguiam encontrar a felicidade onde viviam. Todas essas nuvens negras de sentimentos ruins davam a eles duas alternativas: matar ou morrer.

Você decidiu morrer. Você preferiu matar a sua criança e poupá-la dos homicidas. Foi o seu último ato de proteção. E então você a matou e se matou. Você a converteu e se converteu em mais um corpo vivo de alma morta. Será que você não tinha mesmo escapatória? Por que você matou a criança que havia dentro de você?


4 comentários:

  1. Impactante o seu texto, estou refletindo e analisando e concretizando de acordo com o meu modo de pensar.

    Irei analisar melhor... No momento estou em um turbilhão de pensamentos e não consigo descrevê-los.

    Mas, eu não matei a criança que aqui existe, preservo os meus sonhos, me permito ser quem sou, mesmo com as minhas qualidades e os meus defeitos e sou feliz, me permito me considerar FELIZ!

    Abraços

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  2. esse post me lembrou um filme de terror de gosto duvidoso chamado 'silent hill'. o filme é péssimo, mas a história é interessante. eles matavam as crianças por acreditarem que eram bruxas pecadoras, e isso na verdade os fazia mortos-vivos, porque os pecadores eram eles.

    muito bom :D

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  3. Puxa, Peterson. Que texto marcante... Há muito o que refletir nele.

    Abraços.

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  4. Grande Peterson,

    eu estava lendo, por conta de uma ajuda que eu estava prestando a uma amiga fazendo monografia, um livro falando sobre o conceito de infância e como ele surgiu.

    Lá em meados da idade média a infância pouco era considerada. A criança era tratada como um adulto "em miniatura" e não havia esse cuidado todo, essa atenção, esse carinho como existe hoje em boa parte das relações entre pais e filhos.

    E por conta de ser "considerado um adulto em miniatura" as crianças já praticavam atos que certamente seriam bastante reprováveis atualmente - e a pedofilia, por exemplo, era algo comum. Imagine. A partir daí surgiram os internatos e a história caminha.

    Aos poucos é que houve uma compreensão e estudos sobre as fases da infância e desenvolvimento cognitivo.

    E o infantícido mesmo é até hoje prática comum em algumas tribos indígenas.

    Tudo isso para dizer que a infância pode não ser fácil. Ser criança em uma sociedade que ainda guarda alguns costumes de séculos e séculos pode ser doloroso e até proibitivo - para muitas a coisa toda melhorou, para tantas outras continuam iguais ou piores.

    Amadureça! É isso o que dizem.

    Um abraço!

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