domingo, 31 de janeiro de 2010

Receita de bolo


Ela é simples e fácil de fazer. Se algo der errado, a culpa é sua e somente sua.

Ter uma vida feliz e sem grandes problemas é muito simples. Você apenas precisa juntar alguns ingredientes e seguir corretamente o modo de preparo, e voila! Tudo dará certo. Vamos aos ingredientes:

- 1 colher de sorrisos felizes
- 2 xícaras de paciência
- 5 xícaras de compreensão
- 1 ½ xícara de simpatia
- 1 copo de diversão (isto inclui piadas de pontinhos)
- 25 livros de autoajuda

Você pode dizer:

― Mas Chef Florindo, eu segui esta receita e ela não deu certo. EU QUERO O MEU DINHEIRO DE VOLTA!

Mas será que você fez mesmo tudo certo? Será que misturou os ingredientes da maneira correta? Será que não faltou algum ingrediente ou então você usou uma quantidade maior o menor do que a requerida?

A vida é tão simples, mas as pessoas são tão desconfiadas que acham que ela é tão complicada quanto dar um nó em pingo d’água. É como uma receita de bolo, onde se você seguir corretamente o modo de preparo, tudo dará certo e, se algo fugir do planejado... bem... a culpa foi sua por não tê-la seguido rigorosamente.

― Será mesmo? Se fosse assim, teríamos várias pessoas felizes e o que mais vemos por aí é gente egoísta, frustrada e mal-humorada.

Experimente comer o bolo ainda quente ou quando ele não estiver pronto. Não ficará bom e não ponha a culpa no bolo. Tudo tem o seu tempo, meu amigo. E mais uma vez você não está respeitando o modo de preparo! Lembra das duas xícaras de paciência? Elas estão faltando!

― Glanotski, vratski, odubaye! (resmungando)

As receitas de bolo são absolutas. Se algo der errado, a culpa é sua, somente sua. Não tente inventar desculpas. As pessoas não são doidas, não existe gente piruá. Se há algum doido aqui, esse doido é você. E se você quiser saber por que você é doido, compre o meu mais novo livro, na livraria mais próxima!

....

Preciso contar um Segredo para vocês. Na verdade, as receitas de bolo não são absolutas, embora funcionem muitas vezes. Às vezes o bolo não cresce e eu não consigo explicar por quê. Talvez algumas pessoas sejam piruás mesmo, não reagindo ao calor. Bem, eu me alimento de dúvidas...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Infanticídio


E mais uma criança havia sido morta. A mídia nada noticiou. Casos assim eram bastante comuns e não despertavam mais o interesse das pessoas.

Era uma vez uma sociedade onde as crianças não eram bem-vindas. Elas não tinham muito tempo de vida e morriam pouco a pouco a cada ano, em um processo lento e doloroso. Para muitos, isto era natural, era uma dessas “coisas da vida” e nesta sociedade, esperava-se que todos fossem se tornar infanticidas. Havia os infanticidas homicidas e os infanticidas suicidas nela.

Os homicidas eram aqueles que matavam as crianças. Eram pessoas amarguradas, frustradas, tristes, egoístas. Eles o faziam ao destruir sonhos, através de atos ou argumentos. Diziam que a felicidade é uma ilusão e que a infelicidade é um destino certo. Não conseguiam esboçar um sorriso e a alegria alheia era ofensiva. E sempre que podiam, passavam a perna em alguém para poder tirar alguma vantagem.

Havia sinceridade nas crianças. Elas falavam, diziam e agiam de acordo com o que sentiam. Havia brilho no olhar das crianças. Elas conseguiam enxergar o que era realmente encantador. Havia felicidade nas crianças. Elas conseguiam sorrir sem precisar de grandes motivos. Havia pureza nas crianças. Elas não socializavam por puro interesse.

Gritaram: “A criança está sorrindo, arranquem-lhe todos os dentes! Ela deverá ser uma de nós, um corpo vivo de alma morta. Deverá crescer e tornar-se artificial como todos nós”.

Os infanticidas suicidas enxergavam toda essa maldade e não conseguiam encontrar a felicidade onde viviam. Todas essas nuvens negras de sentimentos ruins davam a eles duas alternativas: matar ou morrer.

Você decidiu morrer. Você preferiu matar a sua criança e poupá-la dos homicidas. Foi o seu último ato de proteção. E então você a matou e se matou. Você a converteu e se converteu em mais um corpo vivo de alma morta. Será que você não tinha mesmo escapatória? Por que você matou a criança que havia dentro de você?


domingo, 17 de janeiro de 2010

Bate que eu gamo


O coração é um músculo que o cérebro não consegue controlar.

E eu que achava que estava imune a paixonites bobas e que era capaz de escolher quando eu gostaria de estar apaixonado, peguei uma gripe forte de encantamento. Meu coração fez tum-tum, fiquei com os olhos brilhando e com um semblante sonhador.

As pessoas alertavam-me dizendo que tu não prestavas para mim, mas o coração mandou-me ignorá-las. Ele me dizia que elas estavam com inveja por eu estar apaixonado e gostariam que eu continuasse com elas no Grupo dos Solitários Infelizes Convictos.

Hoje eu quero-te, somente a ti e mais ninguém. Tu tens a essência que eu sempre procurei. Mas ei, por favor, olhe para mim!

Tu me olhaste e eu supervalorizei qualquer besteirinha capaz de derreter meu coração de manteiga. Tudo que tu pedias eu fazia sem hesitar, o que eu menos queria era desapontar-te. E quando eu te desapontava, eu sentia o medo de ter te perdido por causa de bobagens e porque eu não conseguir demonstrar o quanto tu és importante para mim, sei que jamais conseguiria encontrar uma pessoa tão interessante quanto vossa mercê.

As pessoas me alertavam que eu estava cego e tu não sentias nada por mim e que para ti, eu era apenas mais um. Eu pensei em várias maneiras de te agradar e me achava no topo do mundo quando tu respondias “legal”. Havia pessoas interessadas em mim que tentavam me agradar para que eu as notasse, mas eu pedia para elas desistirem porque meu coração estava ocupado. “Tens que gostar das pessoas que gostam de ti”, diziam as pessoas ao meu redor com dor-de-cotovelo. Mas...

Je suis folle
Je m'abandonne
Mea culpa

E é fácil escolher por quem devemos nos apaixonar? O coração é um músculo mimado que não desiste do desejo por mais que seja maltratado.

A angústia, a frustração e o eterno medo de ficar sozinho tomaram conta de mim quando eu vi que na verdade tu pouco te importavas comigo. Não importava o quanto eu tentasse te agradar, eu não ia conseguir nada além de indiferença. Meu coração apenas acordou do transe e libertou o meu acorrentado amor-próprio quando tu começaste a senti prazer em ver-me fazendo tudo o que querias sem hesitar, como um bichinho de estimação obediente.

Então eu acordei para poder desistir. Uma pessoa que quando não é indiferente a mim, quer me fazer de capacho definitivamente não é boa para mim.

O coração é um músculo burro que tende a escolher o que é o pior para ele. É um músculo que desvaloriza o bom e supervaloriza o ruim. Ele pode nos fazer perder o senso do ridículo. É um músculo que sente prazer em ser arrastado pelo asfalto escaldante e sujo da Guiné-Bissau.

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OBS: Apesar de escrito em 1ª pessoa, não estou vivendo o que escrevi no post.


domingo, 10 de janeiro de 2010

Caleidoscópio


A pessoa que você realmente é (ou pensa que é) é a mesma que as pessoas ao seu redor pensam que você é?

Quem sou eu? Muita gente um dia já deve ter parado para pensar na pessoa que é, seja para responder a essa pergunta no Orkut, seja porque alguma situação os fez analisar a pessoa que estão sendo ou foram.

Não existe uma resposta exata para essa pergunta, mas podemos chegar perto de teoria aceitável. Ela seria mais bem desenvolvida por uma pessoa que sabe muito bem o que a agrada e desagrada e que sabe reconhecer as próprias virtudes e defeitos.

E mesmo que tivéssemos formulado uma teoria bastante fiel à pessoa que somos, que validade ela teria? Os desconhecidos estabelecem conceitos sobre nós antes mesmo de tentar nos conhecer a fundo. Somente o tempo e a convivência são capazes de mostrar a elas que elas podem ter se enganado. Quem nunca acabou conhecendo uma pessoa que a princípio parecia desagradável e que depois o tempo mostrou a você que ela não era isso ou vice-versa?

E a nossa teoria mais fiel pode não bater com a teoria das pessoas ao nosso redor que convivem conosco. Uma pessoa pode achar você mais ou menos inteligente do que você é, mais ou menos divertido, mais ou menos problemático e por aí vai.

Logo, as teorias que formulamos sobre as pessoas que somos além de ter a validade curta (já que nós estamos sempre mudando, para melhor ou para pior) podem variar de pessoa para pessoa. Então quem somos? Uma pessoa diferente do ponto de vista de cada um? Ou estamos dentro de uma espécie de caleidoscópio onde somos a mesma pessoa, mas vista apenas por ângulos diferentes?

domingo, 3 de janeiro de 2010

Sinta o medo


Eles sabem do seu desejo de mudar e de conseguir algo melhor, mas se você tiver medo, eles o usarão contra você.

Ei, criança. Que rebeldia toda é essa? Quer levar uma surra de chinelo? Quer ficar de castigo? Continue assim e você vai ficar um mês inteirinho sem poder assistir televisão e entrar na internet ou então, eu vou trancar você em um quarto escuro...

Ei, mulher. Com quem você acha que está falando? Sou eu quem banca você, as crianças e as contas desta casa. O que seria de você sem mim? Você não tem onde cair morta! Você não tem como sustentar as crianças. Elas precisam de um pai para colocar comida na mesa e passariam fome sob sua tutela, pois nem emprego você tem. Você é uma covarde, uma fraca. Você cai fácil na minha conversa de que eu vou mudar e de que tudo vai ser diferente. E não ouse me denunciar à polícia ou eu vou dar mais uma surra em você...

Ei, assalariado. Você sabe com quem está falando? Desde quando você tem direitos? Sou eu quem paga o seu salário e continue com essa heresia e eu mandarei você para a rua. Aliás, você tem noção de quantas pessoas vem aqui todos os dias para deixar currículos? Você sabe como está o mercado de trabalho lá fora? O que você tem a oferecer? Que estudos você tem, o ensino médio? E eu consigo gente melhor e com muito mais vontade de trabalhar pagando um salário menor. Trabalhe direito e sem reclamar. E lembre-se: se um dia você sair daqui, o que eu realmente duvido, você vai precisar de referências nossas e teremos o prazer de revelar o profissional medíocre que você é...

Ei, pecador. Acha que consegue escapar das leis de Deus? Acha que consegue esconder Dele todos esses pecados? Você não subirá aos céus no dia do Juízo Final. A morte é inevitável e ele punirá todos os pecadores jogando-os no fogo do inferno. É isso o que você quer, o fogo eterno? Quer sentir a fúria Dele? Junte-se a nós e poderemos salvar a sua alma. Converta-se, reze, seja um fiel de nossa Igreja, desprenda-se dos bens materiais e Ele te perdoará porque Ele é misericordioso...

Ei, revolucionariozinho psedo-socialista. O que você acha que você é? Que poder você acha que tem? Eu tenho advogados poderosos. Eu tenho ensino superior. Eu tenho o poder de alienar o seu povinho com favores, com showmícios e com mentiras. Eles acreditam em mim. Eles podem até desconfiar de mim, mas votam em mim de novo. Tente mostrar a verdade a eles, quem vai acreditar em você? E não se meta a besta comigo ou eu posso perder a paciência. Você não sabe com quem está falando. Continue com essa ousadia que eu vou mandar encher você de bala...

Cale-se. Você deve fazer o que eu digo sem contestar. Você sabe que você precisa de mim. Você sabe que não é nada sem mim. Eu não tenho nada a perder, mas você sim. E você é covarde demais para mudar tentar alguma coisa. Você apenas tem a ousadia de me desafiar, mas nada mais que isso. Eu olho em seus olhos e vejo medo, insegurança. Vejo que você é incapaz demais para levar suas ameaças em frente.

Ou você cala a sua boca e faz as coisas da maneira que eu quiser ou ouse, siga em frente com suas ameaças ridículas. Quero ver se você terá coragem de arcar com as consequências. Quero ver se você tem a coragem de mudar.