domingo, 28 de novembro de 2010

Referendo - Voto obrigatório

O voto deve continuar sendo obrigatório no Brasil? Neste post de estreia da série “Referendo”, abordaremos a questão do “voto obrigatório”.

A grande mídia do Brasil, que é a nossa grande formadora de opinião, infelizmente, é parcial. Durante estas eleições gerais de 2010, isto ficou bastante explícito, desde capas de revista tendenciosas até um perícia controversa para mostrar que um dos candidatos não foi atingido por uma simples bolinha de papel. Não há o compromisso com a verdade e sim, em defender os interesses de uma minoria que governa o país.

O maior objetivo da série “Referendo” é convidar o leitor a analisar os prós e os contras de ser contra ou a favor de alguma coisa e ajudá-lo a ter uma opinião sobre temas polêmicos.

O tema de estreia desta série não é novo e sempre é debatido com maior ênfase quando são divulgados os números finais das eleições. Quais as vantagens e desvantagens de um sistema eleitoral onde o voto é obrigatório e as de um sistema onde o voto é facultativo?


VOTO FACULTATIVO
- O voto obrigatório fere os princípios da democracia uma vez que o cidadão não tenha a liberdade de escolher se ele deseja votar ou não.

- O voto facultativo estimula o voto consciente. Somente quem estiver realmente preocupado em mudar alguma coisa através do voto, fará questão de comparecer à sua seção eleitoral, não importa o clima ou se é domingo.

- E uma vez que o voto seja consciente, talvez não tenhamos mais o chamado “voto de protesto” para políticos que não estejam preparados para assumir um cargo administrativo ou a eleição de candidatos envolvidos em escândalos de corrupção.

- O voto facultativo seria uma ameaça aos políticos desonestos que usam de discursos demagógicos e populistas para iludir a população mais pobre.


VOTO OBRIGATÓRIO
- O voto obrigatório faz com que a maioria das pessoas (que é a mesma maioria que sente os reflexos de uma boa ou má administração) participe do processo eleitoral e eleja os políticos que a maioria quis.

- O povo brasileiro ainda não está preparado para o voto facultativo. As pessoas mais pobres que formam a maioria da nossa população, ainda não têm consciência da importância da política em suas vidas e, sendo assim, decidiriam por não ir votar. Enquanto isso, uma minoria rica, bem instruída e preocupada em manter a sua posição de domínio na sociedade, votaria - e em massa - naqueles políticos que defenderiam a desigualdade social.


O IDEAL
O ideal seria que a população tivesse consciência da importância do seu voto no processo democrário e de que é através dele que ela pode demonstrar a sua satisfação ou insatisfação com os partidos e os políticos que concorrem à reeleição. Para isso, as escolas deveriam estimular a consciência política nas crianças desde cedo e da maneira mais imparcial possível.

Uma vez que o tema política tenha saído daquele grupo de “coisas que não devem ser discutidas” e a população fosse politicamente madura, o voto facultativo deveria ser instaurado. “Você quer mesmo que os outros decidam o seu futuro enquanto pretendem defender os interesses delas? Então vá votar!”


Considerações finais
Quer expressar a sua opinião sobre a obrigatoriedade do voto? Então comente!

Dê sugestões para as próximas postagens e, se tiver fontes com dados confiáveis sobre este ou outros assuntos, por favor, inclua-os no seu comentário.

domingo, 21 de novembro de 2010

Continue caminhando

À esquerda, como os senhores podem observar, temos um caminho onde seus sonhos se tornam realidade... E à sua direita, temos a mesmice e as coisas tediosas de sempre.

O famoso asfalto escaldante e quente da Guiné-Bissau, agora Patrimônio da Humanidade da UNESCO, dividiu-se em dois. Você não pode parar de andar, é como se a garrafa de Johnnie Walker ordenasse: “keep walking!” Dois caminhos a serem seguidos. Faça sua escolha.

À esquerda, como os senhores podem observar, temos um caminho onde seus sonhos se tornam realidade. É onde a metade da sua laranja pode ser encontrada, encontrar aquilo que você perdeu, ter tudo o que você mais gosta no lugar que você sempre quis... E à sua direita, temos a mesmice e as coisas tediosas de sempre.

O caminho escolhido foi o da esquerda...

Seguindo o caminho da esquerda, você foi subindo cada vez mais alto. Você encontrou abrigo ali, voltou a ter esperanças ali, voltou a sonhar ali, voltou a sorrir ali. Pelas suas veias fluia o melhor sentimento que você pode sentir. Apenas mais alguns metros e você estaria no topo do Monte Everest, ou a poucos degraus da escadaria que te leva às estrelas. Estaria...

De repente, tudo escureceu e você não teve tempo para entender nada. Uma motocicleta veio voando e chocou-se propositalmente contra você que deu com a cara no asfalto e caiu desmaiado.

Escuridão.

O céu sem Lua e sem estrelas. O sangue se espalhando pelo asfalto e, dessa vez, em suas veias, que outrora fluia o melhor sentimento do mundo, agora fluia o pior. O atropelador era um ladrão de sonhos e de esperanças que levava suas vítimas até o topo do Monte Everest apenas para ter o prazer de lançá-las de lá direto para a Fossa das Marianas. Do céu ao inferno. Não contente, roubou o coração de sua vítima, deixando dentro dela, um grande vazio.

Preenchê-lo novamente, conseguirás?

A vítima tenta se livrar da pressão da fossa onde se encontra. Pressão demais para a sua cabeça que não consegue enxergar a luz e sentir o calor do sol. Perguntas sem resposta e o desespero para voltar à superfície e novamente. Quem a ajudará?

Há o medo, o trauma, as sequelas, as cicatrizes, o vazio.

Enquanto a vítima sofre sozinha debatendo-se no mar, o ladrão toma vinho tinto francês em um sofisticado restaurante francês. Enquanto a vítima sente frio, o ladrão está aquecido pelas esperanças e os sonhos que roubou. Enquanto a cicatriz não fecha e a dor não passa, o ladrão sente-se bem para mais uma. O ladrão não sofre, não sente, não escuta, não quer um feedback, ele ignora a dor que causou. Não sente remorso e não pede desculpas.

E a vítima vai emergindo à superfície para voltar a tomar o asfalto escaldante e quente da Guiné-Bissau. É o destino. Você não pode parar.

Keep walking!

domingo, 24 de outubro de 2010

Eras

Você finalmente se tornou uma pessoa independente. Você tem dinheiro para gastar no que quiser.. Mas qual é o preço que você está pagando por isso?

Havia tempo, muito tempo. Muito anos a serem vivido ainda. Havia tempo de sobra para visitar os amigos, para trocar figurinhas, para brincar com os pés descalços pela rua empoeirada. Andar de bicicleta, deixar a bola quebrar a vidraça da vizinha mal-humorada. Não havia grandes preocupações, responsabilidades e uma cobrança de si próprio.

O mundo era calmo e bonito. O choro era sincero e o sorriso também. A amizade era sincera e quando o grupo de amigos se reunia, todos riam de qualquer coisa. Tudo era engraçado. No entanto, não havia independência e tudo dependia do aval da mãe: dinheiro para comprar chiclete, ir ao cinema, uma bola de futebol, brinquedos, roupas, permissão para ficar fora de casa até mais tarde. Nada de independência, nada de dinheiro.

O tempo começou a passar mais rápido. A segunda-feira apenas começou e o dia seguinte, já é sexta. E o fim de semana passou em questão de segundos. O tempo corre e não dura. O dia de 24 horas resume-se a 6 horas, 4 horas, ou até menos. Você não tem mais tempo para conversar com seus amigos porque agora você trabalha. Seus amigos também não tem tempo para você porque agora eles trabalham. Você muda, seus amigos mudam, namoraram, se afastam e quando você vê, vocês não são mais amigos. Vocês são agora apenas conhecidos e a conversa entre vocês fica restrita ao “oi, como vai a família”?

Por que não tentar fazer novas amizades? Ah, agora as amizades sinceras são raras. Beleza e sucesso pessoal e profissional tornam-se pré-requisitos para isso. Seu amigo passa a perna em você e se torna seu supervisor porque roubou suas ideias. Você descobre que sua melhor amiga traiu você com o seu marido. Ou então o seu outro amigo simplesmeste sumiu porque está namorando e a namorada dele quer que ele viva somente para ela.

É a vida adulta, meu amigo. Sinta-se ridículo sempre que desejar brincar com seus amigos. Sinta-se ridículo sempre que sentir falta das amizades espontâneas e sinceras. Sinta-se ridículo sempre que tiver vontade de jogar tudo para o alto e sair correndo sem rumo. É a vida adulta, aguente!

Acorde cedo, vá trabalhar, almoce, ria da piada sem graça do seu chefe, ature a sua colega de trabalho que não para de reclamar de tudo e de todos o tempo todo, pegue o ônibus lotado, chegue em casa morto, faça o jantar, assista a novela, tome um banho e durma, porque no dia seguinte tem mais do mesmo. E quando chegar o fim de semana, você vai precisar beber para se divertir em ambientes onde somos mercadorias atrás de uma vitrine.

Há um estilo de vida a ser seguido. Force-se a se encaixar nele e a fingir gostar. Censure seus desejos de infância, os sonhos não-realizados. Você será chamado de louco. O tempo é curto. Seu emprego agora é sua mãe. Sua família são seus colegas de trabalho que só falam da família, atividades domésticas e sacanagem. Os amigos se foram e cada um seguiu seu rumo. Sua amiga é a televisão. E o trabalho além de ser nosso ganha-pão, é a nossa fuga da realidade. Porque aqui nós vivemos para trabalhar por nós e por aqueles que podem curtir a vida, que é algo que acontece enquanto os outros se divertem.

domingo, 3 de outubro de 2010

Fora d'água

Sou como aqueles peixes que nadam contra a correnteza. Tenho minhas próprias ideias e meu modo particular de pensar, agir e viver.

Quebro regras e preconceitos. Não, não sou um rebelde. Simplesmente não consigo curtir o que é imposto como sendo “legal” ou “chato” então, sou peixe fora d’água.

Quando as pessoas exibem seus corpos sarados na praia e eu mostro toda a brancura dos meus músculos pouco desenvolvidos, sou peixe fora d’gua.

Quando as pessoas falam dos lugares que já visitaram pelo mundo e eu só estive a 40km de distância, sou peixe fora d’água.

Quando as pessoas têm uma vida social e algum lugar para ir ou algo a fazer no fim de semana e meus amigos estão fora ou ocupados, sou peixe fora d’água.

Quando as pessoas compram coisas caras, gastam muito dinheiro com o que quer que seja quando querem e eu sofro quando tenho que comprar uma simples camiseta, sou peixe fora d’água.

Quando as pessoas falam em ter filhos e família e eu não posso ter ou prefiro ser solteiro, quando as pessoas comem de garfo e eu de colher, sou peixe fora d’água.

Quando todos riem das tragédias dos outros e de supostas escolhas que eles fizeram e eu não acho isso engraçado e justo, e tenho que me dar conta de que este é o mundo real e nós temos uma sociedade tão nojenta, sou peixe fora d´’agua.

E quando as pessoas não conseguem pensar por conta própria, quando a ignorância é a tendência deste verão que nunca termina, quando as pessoas não têm um cérebro dentro de suas cabeças e eu penso por conta próprio e tenho uma cabeça que pensa, sou peixe fora d’água.

E peixes fora d’água sentem-se esquisitos e estranhos porque eles são diferentes se comparados a outros peixes e eles sabem que só um punhado de peixes pode realmente entendê-los. Às vezes eles gostariam de ser como os outros e sentirem que eles não têm um problema. Mas infelizmente eles não conseguem mentir para si mesmos então, sentem-se como peixes fora d’água.

domingo, 26 de setembro de 2010

Paz mundial


O jurado do Miss Universo perguntou à candidata dos Estados Unidos qual era o seu maior sonho. Ela respondeu: a paz mundial.

Talvez fosse apenas uma resposta clichê para ela parecer um ser humano bondoso e vencer o concurso de Miss Universo. Talvez fosse mesmo um desejo sincero de alguém que acredita que esse sonho possa um dia tornar-se realidade, embora ela soubesse que isso era humanamente impossível. Quem um dia saberá? Estaremos vivos quando a paz mundial reinar sobre a Terra?

Engraçado como algumas palavras não tem nada a ver com sua raiz, não? Por exemplo: humanidade que tem como um de seus sinônimos “bondade e benevolência”. Como se os humanos fossem bondosos e benevolentes por natureza...

Os seres humanos são criaturas magníficas. Ao contrário dos outros animais, ele não precisa caçar e usar as unhas para este fim e desenvolveu uma inteligência que tornou possível o controle de seus instintos animais. Talvez por isso mesmo, soe pejorativo chamar os humanos de animais.

Humanos matam outros animais para comer. Os vegetarianos repudiam tal ato. Humanos matam entre si e não é para comer, embora exista casos remotos de canibalismo. Humanos matam por poder, por prazer, por riqueza, por lazer ou para manter a sua “honra”.

Humanos destroem a si e a natureza. O planeta já mostra os reflexos da intervenção humana e a natureza mostra a sua fúria com inundações, secas, erosões que culminam na perda de vidas humanas e selvagens.

O planeta já está saturado disso. Os humanos são tão arrogantes que dizem acreditar em um Deus que criou o mundo para eles destruírem à vontade tudo o que Ele construiu. São tão arrogantes que acham que podem sair por aí vendendo vagas no céu após suas previsões patéticas de vários fins do mundo.

Mas não foi necessário um meteoro chocar-se contra a Terra e levantar uma nuvem de poeira bloqueando o Sol e dizimando a raça humana com uma era glacial. Ainda teremos cães, gatos, flores, árvores, borboletas, todos os animais, todos os insetos e todas as plantas gozando de mais um dia de sol.

Os cães uivam para o luar. Eles sentem a falta de um amigo. As baratas sambam sobre os escombros. Elas terão matéria orgânica para alimentarem-se por décadas. O fim do mundo havia chegado... para os humanos. A Terra ainda estava de pé, tentando, sozinha, reconstruir-se depois de toda a destruição que a raça humana causou.

A paz mundial estava chegando. O mundo havia atingido o limite do insuportável. Os homens destruiram-se entre si com suas armas químicas e biológicas. Humanidade não era nem de longe sinônimo de bondade e benevolência.

Os últimos homens que restaram na Terra brigavam pelo direito de ser o Rei do Mundo e desfrutar da pouca água e comida que havia restado. Então um deles pegou um revólver e assassinou todos os outros que restaram. Ele era o único homem na Terra. Não havia ninguém mais para serví-lo, para admirá-lo, para alimentá-lo. Ele enlouqueceu devido a fome e a perturbadora solidão. Então, ele fez o último disparo de uma arma de fogo que a Terra pôde ouvir. Ele deu um tiro na própria cabeça. O último homem na Terra havia morrido.

Finalmente a paz mundial foi estabelecida quando os humanos já estavam todos mortos.

domingo, 19 de setembro de 2010

Aos meus pés


Hoje eu quero jogar e você será o meu brinquedo. Com meu discurso dissimulado e sua carência, terei você a meus pés.

Quero um estepe. Quero ter alguém disponível sempre que meus amigos me virarem as costas e eu me sentir sozinho. Quero ter alguém disponível sempre que eu precisar de um troféu. Quero ter alguém disponível para eu poder humilhar e que se humilhe por mim mostrando que eu sou o gostosão do pedaço e que não sou eu quem precisa de alguém e sim, você que é carente.

Escolhi você para ser meu arranjo temporário, portanto, orgulhe-se. Conhecerás o príncipe encantado que você achava não existir. Ressuscitarás aquele coração esfarrapado e voltarás a sentir coisas que você achava que se limitavam ao seu imaginário, à sua adolescência ou aos filmes românticos.

Eu jogo esse jogo há um bom tempo e conheço todas as armadilhas que devo armar para tornar você emocionalmente dependente a mim. Serei um poeta. Escreverei coisas lindas e extremamente melosas. Teremos várias coisas em comum: o romantismo, o gosto pela leitura, a cidade, o estilo de emprego, os dias livres.

E quando você cair na minha armadilha, controlarei você através dos seus sentimentos e me divertirei com isso. Planejaremos algo que nunca irá acontecer, tornar-me-ei uma pessoa fria e distante que irá abandonar a sala e deixar você lá esperando por mim até tarde em vão. E esse será meu jogo de paciência que irá durar dias.

Não é nada pessoal, não é nada contra você. Apenas tive uns probleminhas mas saiba que todas as mentiras que eu contei são verdadeiras e eu gosto de você sim e você foi a pessoa mais fascinante que conheci nos últimos anos.

Hoje eu acordei meio hipócrita. Direi que aquilo que eu procuro é aquilo que o mundo deixou para trás. Condenarei a superficialidade e não quero ser visto apenas como um pedaço de carne. Enquanto você espera na sala por mim mais uma vez, vou curtir a vida e me divertir com as pessoas erradas enquanto eu não encontro a pessoa certa. Vou usar, abusar, ser usado e ser abusado. O discurso démodé da superficialidade será esquecido.

E friamente, contarei a você todos os detalhes e do quanto eu me diverti e do quanto eu beijei. As lágrimas que rolam pelo seu rosto não me comovem. Não tenho um coração, não tenho sentimentos para entender. Não me importo que um dia você vá embora. Sou gostoso, sou lindo, sou absoluto e você só tem esse coração puro e sincero que explica a sua carência.

Jamais admitirei meus erros. Jamais sentirei remorso pelo mal que eu causei. Jamais pedirei desculpas. Você é a única pessoa errada. Não duvide de mim nunca, jamais. Sou uma pessoa que mente, que não diz o que sente, não sou transparente mas, acima de tudo, sou inocente.

Continue sendo meu arranjo temporário. Preciso de um troféu para exibir ao mundo para quando eu estiver sozinho. Preciso de um arranjo temporário para que eu me lembre de que eu sempre terei alguém implorando e se humilhando pelo meu amor. Preciso usar você no meu jogo para fazer ciúme nos outros quando for necessário. Preciso de alguém para pisar, para contar minhas aventuras sexuais não-sexuais.

Preciso de alguém para manter o meu ego sempre inflado. Continue alimentando esperanças, mas saiba que você nunca estará à minha altura.

Quanto mais eu faço você chorar, mais gostoso eu me sinto.

Hoje eu acordei meio hipócrita, meio falso, meio frio e meio cruel. Io sonno un poeta o sonno un imbecile? Não importa. Hoje eu me sinto tão bem...

domingo, 12 de setembro de 2010

Um povo que luta por justiça


A cada dia que passa, mais e mais brasileiros obtêm acesso à internet. Chega do monopólio da informação parcial da Rede Globo. Agora somos livres para encontrar a verdade.

CNN, BBC, Reuters, Wikipédia, blogs... A informação está acessível a qualquer brasileiro que quiser pesquisar a verdade das coisas pela internet. Temos uma oportunidade incrível de protestar e organizar flash mobs em redes sociais como Orkut e Twitter. Todos em prol de um Brasil melhor e mais justo...

- Olha lá! A Globo está roubando na prova do líder! O Luizão continuou colocando as sandálias no cesto depois que o tempo parou e venceu a prova do líder! Que absurdo! Vou gravar as cenas da prova do líder, editar um vídeo, publicar no YouTube e divulgar no Twitter!

- Meu, lembra daquele paredão com mais de 150 milhões de votos? Foi tudo armação! Todas as enquetes do UOL, BOL, IG mostravam que a Patrícia tinha mais de 75% dos votos para sair. Como assim a Denise saiu com 62%? Muito estranho, né?

- Oh, meu Deus. A Karolaynne não deveria ter sido escolhida para representar o Pará. Sério, a gente não merece uma representante safada e oportunista como ela. Semana passada ela só falava mal do Wandersson e agora tá ali conversando com ele numa boa só porque ele venceu a prova do líder! Tenho muita vergonha por ela ser daqui.

- Não acredito que o Dourado venceu o BBB10. O Brasil não merece ser representado por um homem grosso, homofóbico, violento e perturbado como ele.

- Vamos votar muito para eliminar a chorona da Lia! #foralia

- Não acredito que o Samir saiu do Colírios Capricho! Que roubalheira! Ele era o mais bonito de todos os meninos. O mais “perfect” de todos!

- Como assim o Luan Santana está nos Trending Topics Worldwide? Não vou permitir isso! Vou tweetar “Pedro Gabriel Lanza Reis” e “#Brazil♥Restart”. *-*

- DO QUE VOCÊ GOSTA, FELIPE NETO? [assista aqui]

- Lá você pode atirar nas pessoas, explodir coisas e eles dizem: “Obrigado! E aqui está um macaco para você levar para casa”.
- CALA BOCA STALLONE!

- Família Restart não presta mais porque eu cheguei aqui 8 horas da manhã e eles não “vinheram” falar com a gente. Não, não vou perdoar, vou xingar no Twitter hoje, muito... Sério... [assista aqui]

[...]

E enquanto nós, brasileiros, usamos a internet para denunciar as armações do Big Brother e que as votações são fraudelentas ou para xingar muito no Twitter, a corrupção rola solta em Brasília. Um protesto no topo dos Trending Topics não tira ninguém do poder, não faz justiça e não torna a sua vida melhor.

Big Brother Brasil 8: quando uma injustiça acontece, o povo protesta e Pedro Bial, Presidente de Brasil e filósofo pós-moderno, vem para salvar o dia!

Este post foi escrito para o Movimento E-leitor promovido pelo blog Grama Azul.

domingo, 5 de setembro de 2010

Quase lá


Oh, meus sonhos estão bem na minha frente agora, tão reais que eu quase consigo tocá-los. Estou subindo o último degrau... Então meus sonhos viram fumaça e eu caio.

Sonhos são como uma imensa escadaria que começa na Terra e termina nas estrelas. Uma escadaria cheia de obstáculos e degraus quebrados. Quanto maior a altura, maior o tombo. Você é um daqueles loucos sonhadores que almejam tocar as estrelas no céu? Sim, eu sou um deles.

Depois de tanto lutar, sonhar, perseverar e trabalhar, aqui estou eu, no topo da escadaria. Você pode dizer que eu já sou um vencedor afinal, já cheguei nas nuvens e fui mais além. Oh, meus sonhos estão bem na minha frente agora, tão reais que eu quase consigo tocá-los. Preciso apenas dar mais um passo, estou subindo o último degrau... Minhas mãos estão prestes a ligar o homem ao sonho. Então, de repente, tudo desaparece. Meus sonhos viram fumaça, a escada vira fumaça e eu caio. E vou caindo e caindo. As estrelas perdem o brilho aos poucos...

Ao campeão, as rosas, a glória, o reconhecimento e aquele prêmio que vale mais do que o dinheiro: o sentimento de que você é um vencedor. Ao perdedor, os leões, que devoram sua cabeça e o público delira. Quem sabe não teria sido melhor ter sido o 3º colocado? Você termina como vencedor.

Existe sensação pior do que a de que você quase chegou lá? Quase... Se não tivesse sido por aquele errinho eu teria vencido. Somos educados para sermos vencedores, não perdedores. O vencedor é venerado, reconhecido e ao perdedor, resta a sombra e o sentimento do “quase”.

Orgulho-me de tudo o que conquistei, das barreiras que superei, mas eu não queria sentir esse gosto amargo na minha boca. O que mais me deixa frustrado não é a derrota em si, mas o fato de que esta oportunidade de conquistar aquilo o que eu poderia ter ganho não aparece todos os dias e nem sempre do jeito que sonhava. Eu dei o meu melhor, mas não foi o bastante.

Meu corpo finalmente cai no chão e as estrelas somem dando lugar a um céu prateado. O mundo ao meu redor sente prazer em ver que, assim como eles, eu também sou um perdedor.

Eu quase consegui, eu poderia ter conseguido... Mas bem, pior que o sentimento de “eu poderia ter...” é o sentimento de “eu sequer tentei”. Eu já cheguei nas nuvens e isso é alguma coisa. E é preciso muita coragem em uma escada que você tem consciência de que pode desaparecer a qualquer momento...

Sonhar não é para os fracos.

domingo, 29 de agosto de 2010

Só um corpo e nada mais


E você procurou amor no desejo e então ele disse que te ama e quer que você vá para o fim da fila.

Quero ser amado. Quero que o mundo admire toda a minha beleza, minhas curvas. Quero ouvir os assovios quando eu passo em frente ao prédio em construção. Quero me tornar um novo desejo, a razão de um acidente de carro.

Para tornar-se um desejo, deve-se calar a boca e malhar. Malhar muito! Deve-se usar roupas curtas e coladas ao corpo para melhor exibí-lo. Deve-se curvar o corpo de uma maneira que valorize os peitos e a bunda. Deve-se saber beber no canudinho de maneira sexy e provocante. Deve-se saber enlouquecer um homem e deixá-lo em chamas.

O desejo atraiu outros objetos de desejo, políticos, jogadores de futebol, dinheiro, sexo imundo, olhares safados, convites para programas de TV de baixo-nível, revistas de sexo.

Mas o desejo não atraiu o respeito, a atenção, a afeição, a amizade sem segundas intenções, a admiração e o tão procurado amor. Um corpo gostoso desperta o desejo sexual dos outros, deixando a sensação de abandono, solidão e vazio.

Se liga, desejo, não seja tolo de esperar por um amor eterno. Você exige demais enquanto tem muito pouco a oferecer além do próprio corpo. Você procura o amor nos lugares errados. Como espera ser amado se você sequer se ama?

Mulher Melancia e seu futuro.

domingo, 8 de agosto de 2010

Um direito, não um favor


Em um país de mal-educados, qualquer gesto de educação causa surpresa nas pessoas. Respeitar as leis, para muitos, não é um dever: é um grande favor.

O Brasil é um país corrupto! Grande novidade... Quando falamos em corrupção, logo pensamos nos nossos políticos. O povo reclama e fica escandalizado como se ele fosse um exemplo de honestidade*... Quando o brasileiro tem uma atitude honesta, ele se acha no direito de receber um agradecimento... ou suborno.

Uma senhora idosa entra no ônibus e a cadeira reservada para os idosos está ocupada por adolescentes. Ela precisa pedir “por favor, posso sentar aqui”? Eles saem e ela agradece...

A vaga do estacionamento reservada para deficientes físicos está ocupada. Um responsável pelo estacionamento chama o proprietário do carro que vem caminhando com os próprios pés até lá para retirar o carro. Retira o carro e ignora o “muito obrigado”.

A mulher grávida quer ser atendida no caixa preferencial do supermercado e os homens (que não têm útero) permitem que ela “fure a fila”, mas demonstram reprovação no olhar.

O patrão diz que seus funcionários deveriam se esforçar mais afinal, a empresa dele não atrasa o pagamento...

Os policiais se orgulham em ter capturado o bandido, mesmo que um garoto de 8 anos tenha sido baleado na cabeça.

Você não precisa sentir-se na obrigação moral de agradecê-los nem mesmo sentir-se culpado se não o fizer. Eles não fizeram um favor para ninguém. Eles não fizeram mais do que a sua obrigação.

Em um país de mal-educados, qualquer gesto de educação gera surpresa nas pessoas. Em um país onde tirar vantagem de tudo é ser “esperto” e ser honesto é ser “otário”, sentimos pena dos “otários” que respeitaram os nossos direitos e queremos retribuir o “carinho” para que não banquemos o “mal-agradecido”.

Infelizmente, vivemos em um mundo onde as pessoas precisam brigar na justiça para criminalizar atos de discriminação. Alguém sabe pôr em prática o significado de respeito sem que a lei precise nos obrigar a respeitar?

---

*Vídeo recomendado: “Brasileiro reclama de tudo
Narração: Salomão Schvartzman
BandNews - 31/05/2010

domingo, 1 de agosto de 2010

A revolução mais difícil


O difícil não é fazer a revolução em si. O difícil é revolucionar a mentalidade das pessoas. É colocar na cabeça delas que elas têm e são o poder.

Oi, vamos começar uma revolução? Vamos nos libertar das correntes da opressão e lutar por direitos para que tenhamos uma sociedade mais justa? Pense em um problema que atinge um grande número de pessoas e pense em como a revolução pode começar. Revolucionemos!

Que tal um mundo sem guerras? Vamos mostrar ao Senhor da Guerra todo o horror dos campos de batalha: mutilações, destruições, morte de vários seres humanos, prejuízo financeiro. Mas vamos esquecer que não existe guerra sem soldados. Vamos revolucionar e mostrar a eles que eles estão arriscando as próprias vidas para defender os interesses de uma minoria poderosa?

Que tal trânsito mais seguro? Vamos protestar contra a falta de sinalização, contra as péssimas condições das rodovias. Mas vamos esquecer que o álcool não somente mata no trânsito por causa de motoristas bêbados como também destroi famílias.

Que tal uma juventude sem drogas? Vamos aumentar o número de policiais para o combate ao tráfico de drogas e construir clínicas de reabilitação. Mas vamos esquecer dos pais que não conversam com os filhos e que não se preocupam com o lado emocional deles.

Que tal lutar pro mais direitos trabalhistas? Vamos exigir dos nossos políticos e do nosso sindicato a criação de leis que combatam à exploração das classes pobres. Mas vamos esquecer de que uma empresa sem trabalhadores não produz e não dá lucros.

Que tal um país sem políticos corruptos? Vamos exigir a aprovação de leis que tornem inelegíveis todos aqueles envolvidos em corrupção. Mas vamos esquecer que quem os elege é o povo e que o povo também não é honesto.

O difícil não é fazer a revolução em si. O difícil é revolucionar a mentalidade das pessoas. O difícil é conscientizá-las de que elas têm o poder de mudar mas para isso, elas mesmas precisam mudar. Além disso, a revolução não é feita por uma única pessoa, ela precisa que várias dela se unam em prol de um mesmo ideal.

O ser humano se orgulha de ser um animal racional, mas ainda é tão escravo dos próprios instintos, dos próprios desejos egoístas e acaba matando, morrendo e vivendo na mesma miséria intelectual porque tem uma imensa dificuldade em colocar em prática coisas extremamente simples.

Todos nós sabemos que a camisinha previne as DSTs e uma gravidez indesejada, mas isso não é levada em consideração quando as pessoas são escravas da própria libido. Todos nós sabemos que dirigir embriagado é uma das maiores causas de acidente no trânsito, mas muita gente acha que está bem ainda quando mal consegue se lembrar do que fez 2 minutos atrás. Todos sabem que a poluição e a destruição dos recursos naturais estão destruindo o planeta, mas muitos ainda desperdiçam água e jogam todo e qualquer lixo em todo e qualquer lugar.

Os séculos se passaram e a mentalidade dos seres humanos pouco evoluiu. Enquanto a maioria das pessoas não tiver bom-senso, todos sofrerão as consequências da ignorância do Homem de Neandertal do século XXI.

domingo, 25 de julho de 2010

A jornada


Em um mar que o Google Earth não consegue localizar, há uma pequena ilha e nela, uma imensa fortaleza.

Uma ilha no Mar da Solidão. Uma ilha quase desabitada se não fosse por uma única pessoa que lá vivia completamente sozinha: a Rainha Razão. Ela tinha uma única preocupação: proteger o seu filho, o Príncipe Coração.

Ela já havia presenciado todo o horror do mundo além daquele oceano imaginário e decidiu fugir para o lugar mais isolado que conseguiu encontrar para proteger seu filho. Fugiu para esta ilha, construiu uma fortaleza e colocou seu coração sobre a almofada mais macia, cobriu-o e isolou-o em uma caixa de vidro rodeada de lasers e com a temperatura controlada. Lá estava ele, aquecido e seguro, o maior desejo da Rainha Razão.

Os anos se passaram e o Príncipe Coração sentia-se muito sozinho, tão sozinho que ficava triste muitas vezes. A Rainha Razão viveu um dilema: a proteção infeliz ou a arriscada busca pela felicidade?

O Príncipe Coração era extremamente persuasivo. Conseguia fazer a Rainha Razão ceder aos seus pedidos mais absurdos e perigosos. E vencera novamente. Ele abandonou o lar e pelos mares, navegou.

E então o coração viu coisas terríveis. Corações cicatrizados e destruídos o perseguiram como vampiros sedentos de sangue e mortos-vivos de carne humana, machucando-o das piores formas. A dor do coração era imensamente maior à dor física. Ele então pôde entender porque havia tanta proteção ao seu redor: ele era o maior tesouro da Rainha Razão.

O Príncipe Coração agora vivia o mesmo dilema de sua mãe. Devo viver isolado e seguro dentro da proteção da Rainha Razão? Ou devo correr o risco de ser completamente destruído nessa minha jornada em busca de um outro coração que me proteja e me faça feliz ao mesmo tempo?

[Eu quero voltar para casa.]

domingo, 18 de julho de 2010

O quanto você é especial?


O que faz de você uma pessoa especial? O que você planta e o que você colhe?

O quanto você é especial? Esta é a pergunta que eu faço para você, leitor, e eu gostaria que você pensasse a respeito em algum momento de devaneio do seu dia, como enquanto almoça sozinho, por exemplo.

Quando queremos que alguém demonstre algum interesse por nós, às vezes tentamos mostrar a elas o quando especial nós somos e as convidamos para o nosso mundo. Ah, como somos tolos.

É muito difícil, em alguns momentos uma missão quase impossível, tentar convencer as pessoas disso. Não adianta tentar impor. Cada um descobre por si e isso pode levar semanas, meses ou até mesmo, anos.

Nós cuidamos do jardim, regamos as flores e esperamos as borboletas virem até nós. Se aquela pessoa por quem você tem interesse não te retribuiu e não quis descobrir o quanto você é especial, é problema dela. É um filtro natural.

Somente as pessoas que nos amam de verdade entrarão no nosso mundo sem pedir licença. Elas abrirão a geladeira, pegarão uma lata de cerveja e ligarão a TV para assistir o jogo folgadamente com os pés sobre o sofá. E a medida que o tempo passa, eles saberão muito sobre nós, nossas manias mais esquisitas e a maneira que nos comportamos diante de diferentes lugares e situações.

Se alguém sabe que você prefere comer de colher, que seu time de futebol favorito é o Aston Villa, que você gosta de escrever sobre superfícies embaçadas, que você tem um blog pouco famoso, além de conhecer seus sonhos, medos e o que faz você feliz, é sinal de que você é especial para essa pessoa.

O que faz de você uma pessoa especial? O que você planta e o que você colhe?

domingo, 11 de julho de 2010

Pessoas e cordas


Alguém me disse que há um pote de ouro no fim do arco-íris e ele se encontra em um local familiar.

Seja novamente bem-vindo ao asfalto escaldante e sujo da Guiné-Bissau onde corações são arrastados. Novamente estamos lá, andando sem parar, tomando caminhos certos e errados. Destino: a felicidade.

Durante nossa caminhada, encontraremos várias pessoas dispostas a nos ajudar (ou não) a tomar a direção correta. Elas juntar-se-ão a nós. A elas, estaremos amarrados por uma corda invisível em nossos pés.

Algumas pessoas andarão no mesmo ritmo que nós. Se estivermos cansados ou desanimados, elas nos puxarão para a frente e nos mostrarão o caminho a ser tomado. Tornar-se-ão nossos amigos e estarão do nosso lado até tomarmos caminhos diferentes ou até que ele chegue ao fim.

Muitas pessoas se tornarão um peso morto para nós carregarmos. Elas não nos ajudarão quando precisarmos, não nos colocarão para cima, mas apesar disso, um sentimento de humanidade em nossos corações nos obrigará moralmente a carregá-los. São pessoas inúteis que carregamos e que só nos cansam. Por que não nos livramos daqueles que não nos trazem nada de bom?

E haverão aquelas pessoas malucas que tentarão nos puxar para trás. Elas nos puxarão com toda a sua força para o fundo do poço onde vivem. Eles não suportam se verem atrás de nós ou nos ver demasiado perto do pote de ouro.

Dentro de nossos bolsos há uma espada que poderemos usar para cortar as cordas. A decisão de seguir em frente deixando para trás quem não nos permite ser felizes é sua.

Chega de se preocupar com o problema dos outros se eles sequer se ajudam. Chega de se importar com gente que não se importa conosco. Siga seu caminho sem precisar ficar carregando pesos mortos e eles que sigam os deles. Um dia eles se esquecerão de nós.

domingo, 4 de julho de 2010

Personagens


Imagine que você possa se reinventar. Imagine que você possa atingir a perfeição. Não é um sonho, é realidade. Não é feitiçaria, é tecnologia!

Feche os olhos e dê uma olhada para si mesmo. O que você mais gosta e desgosta em você? O que os outros mais gostam e desgostam em você? O que torna você especial e o que torna você desinteressante? Pensou? Bem... não interessa. Não estamos aqui para pensar. Pensar é coisa de gente chata. Estamos aqui para seguir um script que nos levará ao sucesso!

Agora poderemos ser a última bolacha do pacotes. Agora poderemos ser a Coca-Cola gelada no meio do deserto. Imagine-se o rei ou rainha do mundo, imponente em seu trono e os súditos se jogando aos seus pés. Impossível? Não, não é possível. Sim, nós podemos!

Quem sou eu? Temos 1.024 caracteres disponíveis para convencer as pessoas de que somos interessantes.

O tempo passa... quem sou eu? "Ah, eu sou isso..." backspace... "não, não, não, é meio idiota colocar isso"... No fim das contas, é muito difícil dizer quem você é em 1.024 caracteres. Será que isso é muito pouco para dizer as outros a pessoa que sou? Isso consegue mostrar ao mundo o quão especial eu sou? Será que é capaz de dizer fielmente quem eu sou?

Ei, acorde! Quem está interessado na verdade? Em um mundo onde as pessoas estão sempre impacientes e apressadas, quem bancará o detetive da internet que irá perder o seu tempo procurando a verdade? Ir atrás da verdade é cansativo então dou-me por satisfeito pelas suas mentiras - desde que sejam legais, é claro.

Diga que você é aquilo que eles querem que você seja. Jamais revele os seus medos, até mesmo porque você não tem medos. Você é oceano de coragem e de autoconfiança. Escreva que você é uma pessoa que vive intensamente todos os dias como se eles fossem os últimos. Diga que você ama coisas que você não ama, mas ame porque está na moda.

"Mas este aí não sou eu, Peterson!" Lembre-se de que você não tem um compromisso com a verdade e sim, em ser orgástico.

Não somente você é corajoso, autoconfiante, fashion e amante da natureza. Você também é culto. Nietzsche, Schopenhauer, Freud... Você nunca leu nada deles na vida, não sabe de que país eles são, o que escreveram nem nada. Você apenas leu por aí em outros perfis suas frases de efeito e decidiu usá-las por aí para enaltecer a sua cultura e se autoafirmar.

Quem não gosta de mim tem inveja. Sinto pena de gente invejosa.

E então, com o passar do tempo, você se tornará o personagem que você criou. Você será sempre um ponto de exclamação (distorcido, mas ainda sim, um ponto de exclamação) e todo mundo gosta de um ponto de exclamação. As pessoas gostam de pessoas perfeitas.

Este não é você e você sabe. Mas quem liga? Quem gosta de gente que tem dúvidas? Quem admira defeitos, medos, loucuras, fracassos? Sejamos apenas mais um mentira em um mundo de mentiras. Furemos nossos olhos e sejamos felizes para sempre.

Sorria e o mundo sorrirá com você. Chore e você chorará sozinho.

Eu não quero ser um personagem, quero ser uma pessoa de verdade. Eu não quero ser um sábio de 23 anos de idade. Eu quero as minhas dúvidas, quero comer a sobremesa devagar.

Sejamos um ponto de interrogação legítimo ao invés de um ponto de exclamação distorcido.

domingo, 27 de junho de 2010

Na umbra


Nascemos da ponta de um círculo e quis o destino que fizéssemos parte de um mesmo grupo. Eu sou a Terra e você é o Sol.

Um universo cheio de dúvidas e nós ali, perdidos, tentando encontrar o sentido de alguma coisa. Foi então que você começou a brilhar e atrair a atenção daqueles planetas e outros astros que vagavam pelo Universo.

Sol, o centro do universo. Todos circulando você, encantados por seu brilho, sua luz, seu calor.

Mercúrio e Vênus foram os primeiros a tentar algo, mas seu calor extremo eliminou qualquer forma de vida dentro deles. Plutão, por sua vez, foi ignorando, vivendo toda a frieza do seu zero quase absoluto. Preferi manter uma distância segura de você para não me queimar no fogo da paixão.

Você me iluminava no meio daquele Universo escuro e assombrosamente calado e confuso. Você transmitia o seu brilho em mim que eu refletia nos rios e no topo das montanhas nevadas. Você me deu vida e me permitiu gerar vida.

Mas no meio do nosso caminho havia um astro, havia um astro no meio do nosso caminho.

De protagonista à coadjuvante. Ela também queria sentir o seu brilho, o seu calor, não importa. Ela ficava me circulando como se fosse a nova dona do pedaço. Temi ficar à sua sombra.

A Lua fez questão de me mostrar que recebia a sua luz através de suas fases. Ela refletia intensamente a sua luz durante minhas noites mais escuras. Ela puxava as minhas marés com extrema violência, deixando-me perturbado. Ressaca.

Vagando no espaço. Então houve o dia em que a Lua finalmente conseguiu me pôr a sua sombra. Eclipse solar. Umbra, penumbra. Eu não quero o meio-termo, eu quero o intenso. Sol, lance em mim toda a sua luz, sem penumbra se você quer que eu seja seu. Lua, lance em minha toda a escuridão deste universo, a umbra, se a escolhida do Sol for você.

Os planetas alinhar-se-ão.

2012 chegará
Sua sombra sobre mim, a Lua projetará
Viverei na mais profunda escuridão
Um meteoro virá na contra-mão
E contra mim, se chocará
Minhas formas de vida, ele dizimará
Uma nova era glacial iniciar-se-á
Uma dor insuportável em meu coração

Estrelas, elas testemunharão
As lágrimas de prata do vice-campeão.


domingo, 20 de junho de 2010

Café


Era um sonho distante? Era a sensação mais intensa que ele poderia viver e que nunca poderia ser repetida?

Em uma tarde comum e fria. O corpo de um homem desconhecido apareceu caído em um bar. Ele estava gelado e imóvel, aparentemente, morto. As pessoas no local, curiosas, levantaram as tradicionais perguntas: “quem é ele”, “de onde ele veio” e “ele está vivo”?

Outro desconhecido caminhou em direção ao primeiro, levando consigo uma fumegante xícara de café com leite.

A fumaça deslizou pelas narinas do homem no chão, aquecendo aquele corpo gelado. E aquele corpo gelado que estava duro e inanimado como uma rocha reagiu. Ele ganhara vida.

— Beba esta xícara de café, meu filho. — pediu o homem seu Salvador, que lhe deu um sorriso, virou-se e saiu do bar com seu dever cuprido.

Ele não sabia quem era e nada sobre o seu passado. Apenas sabia que desejava beber aquela xícara de café, como se fosse um instinto de sobrevivência.

Tomou o primeiro gole. A primeira vez que bebera café com leite na vida. O calor do café aqueceu seu corpo inteiro e ele sentiu-se cheio de vida. O sabor doce do café também não se limitou ao seu estômago, fluiu por seu corpo e invadiu sua mente e coração.

Era um homem novo, jovem, que queria compartilhar da sua alegria gerada por sua primeira dose de café. Conheceu pessoas, fez amigos e curtiu aqueles momentos de felicidade vivenciados pela primeira vez desde que tomara café.

O tempo foi passando e o café da xícara foi acabando, mas alguém sempre colocava mais café na xícara. Em algumas ocasiões, a própria xícara enchia sozinha como mágica. E durante este tempo, o café foi mudando de gosto e temperatura.

Poucos traziam café com leite quente. Algumas traziam apenas café preto com açúcar. Muitos traziam café preto, frio e sem açúcar. Um café amargo, difícil de beber.

O homem absorvia aquilo que o café lhe oferecia. Ele era um viciado em café. Seu instinto animal sabia que o café era aquilo que dava vida a ele e que, sem café, ele poderia perdê-la e tornar-se um corpo gelado e imóvel caído no chão novamente.

No início, o café era doce, quente, saboroso. Com o tempo, ele experimentou a frieza e a amargura e ela também espalhou-se por seu corpo atingindo seu coração.

Mais e mais café. Mais café gelado e amargo.

Não existia mais aquele prazer todo do primeiro gole de café. Era um sonho distante? Era a sensação mais intensa que ele poderia viver e que nunca poderia ser repetida?

Triste e amargurado, aquele homem bebia o café como um escravo. Sabia que não podia simplesmente deixar de bebê-lo se quisesse. Não era permitido por ninguém e nem mesmo ele se permitia parar.

Mais um gole, mais um gole, mais um gole de café amargo e frio. Dentro daquele coração amargo, restava-lhe a esperança de que um dia o café voltaria a ser doce e quente. Não era mais tão criança para achar que aquele momento de prazer seria eterno, mas desejava curti-lo até que não houvesse mais café e ele pudesse agradecer pessoalmente ao seu Salvador que lhe deu a vida.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Os macacos


Darwin estava correto! O homem indiscutivelmente veio do macaco.

Os macacos podem pertencer a diferentes raças. Eles podem ser brancos, negros, índios, amarelos. Estas diferenças servem de pretexto para que alguns macacos acreditem ser melhores do que os outros.

Os macacos podem pertencer a diferentes classes sociais. Eles podem ser mendigos, pobres, ricos, milionários. Estas diferenças servem de pretexto para que alguns explorem os outros.

Os macacos podem adorar deuses e profetas diferentes. Eles podem ser católicos, judeus, mulçumanos, budistas. Estas diferenças servem de pretexto para alguns ataquem os outros.

Os macacos podem ser diferentes fisicamente. Eles podem ser altos, baixos, gordos, magros, belos, feios. Estas diferenças servem de pretexto para alguns discriminem os outros.

Os macacos podem ter idades e sexualidades diferentes. Eles podem ser homens, mulheres, crianças, heteros, gays. Estas diferenças servem de pretexto para que alguns acreditem receber um tratamento e respeito diferenciados dos outros.

Apesar de todas estas diferenças, são todos macacos.

Os macacos não têm educação. Coçam as partes íntimas em público, arrotam, soltam gases, falam aos berros, interrompem os outros macacos enquanto eles falam, furam filas, estacionam nas vagas para idosos e deficientes físicos, deixam o celular ligado no cinema, não respeitam a faixa de pedestres...

Os macacos são maldosos. Eles inventam fofocas, espalham fofocas, consomem fofocas, fazem piadas de mau gosto, ridicularizam, mentem, sentem prazer da desgraça alheia, querem saber quem morreu no telejornal do meio-dia.

Os macacos se alimentam de lixo. Eles se reúnem na frente da TV para assistir as tragédias urbanas, escutam músicas vulgares, vestem os trapos da moda e gastam suas moedas-banana para pagar e criar mais dívidas para impressionar a macacada.

Os macacos são a base da pirâmide, são a massa, a maioria da população. Os macacos têm o poder. Os macacos são o poder. Eles elegem os sucessos da música e da TV. Eles elegem o macaco-rei que irá explorá-los e viver luxuosamente enquanto muitos macacos famintos o chamarão de “Sua Majestade”. Os macacos se acomodam em suas árvores em ruínas rezando e depositando a sua esperança de dias melhores “nas mãos de Deus”.

Os macacos são as engrenagens que movem o mundo para trás. Eles nada veem, nada ouvem, nada dizem. Eles não se importam em seres explorados e em consumir lixo. Eles não querem mudar para melhor. Eles se contentam com muito pouco. Agradar os macacos é muito fácil. O macaco quer bananas? Dê bananas ao macaco!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Beleza e nada


Um dia eu olhei para o desejo, mas o desejo sequer olhou para mim. Eu estava fora dos padrões.

Bom dia, desejo. Eu vejo você por onde quer que eu olhe, na TV, nas revistas, nos outdoors, no cinema, no shopping. É impossível não se apaixonar pela beleza de seu rosto, seu sorriso perfeito, sua pele macia, seu cabelo brilhoso, seu corpo sarado.

Um dia eu olhei para o desejo, mas o desejo sequer olhou para mim. Eu estava fora dos padrões.

Foi um duro golpe que abalou o meu ego e minha autoconfiança. Nunca me achei tão feio e tão desinteressante. Eu queria ser um avestruz e enfiar a minha cabeça no chão.

Mas eu não queria me conformar em ser uma pessoa feia e desinteressante pelo resto da vida. Comecei então a construir a minha beleza, ignorando a beleza exterior e construindo a minha beleza interior.

As pessoas ao meu redor ficavam impressionadas com tanta inteligência, mas mesmo assim eu não era uma pessoa atraente, não era um desejo. Por que será que ninguém enxergava a minha beleza exterior. O conto “A Bela E A Fera” não comoveu ninguém? Era apenas hipocrisia?

Passei a odiar ainda mais o desejo, sendo agressivo com aqueles que admiravam o desejo e com ele mesmo. Aprendi a ser rude e sarcástico na hora de atacá-lo. Eu queria a revanche por ter sido rejeitado.

Gritei:
― Você para mim é o exemplo de que beleza e nada é a mesma coisa.

Ele não entendeu. Fiquei frustrado. Que droga!

...

Mas a quem eu quero enganar? O fato é que eu ainda desejo o desejo, mesmo que eu não seja um igual. E eu sou um frustrado, um recalcado por não estar dentro dos padrões. Acho que se eu fosse fútil, ou parasse de rejeitar o que foi rotulado de fútil, eu seria fútil e seria mais feliz...

Pois é, eu realmente gosto de apanhar e de ter meu coração arrastado pelo asfalto escaldante e sujo da Guiné-Bissau...



Versão completa do vídeo acima no YouTube.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Com medo de Sofia


Como eu tenho medo da verdade, eu prefiro viver no conforto da minha ignorância.

Eles chegaram cheios de saber e temi que eles tivessem o poder de fazer os cegos enxergarem de uma cegueira que me mantém no poder. Eu hei de enviá-los à fogueira.

Criei todo um universo, estórias fantásticas, o bem vencendo o mal, justiça divina, penas severas, tudo muito bem elaborado para me transformar no ser mais imaculado do mundo e ser sempre o Senhor da Razão.

Mas as ovelhas negras fugiram do rebanho e foram procurar a verdade, o saber. Descobriram brechas, contradições. Enviei os meus melhores lobos-maus para caçá-las, irritá-las, amedrontá-las com o meu livro aberto na página das punições.

Eu morro de medo, repilo-o fortemente, a última palavra é minha, sempre minha. O poder é meu, só meu e de mais ninguém. Eu me faço de vítima, digo que você está possuído por demônios, que você é mau, não acredita em nada e que seu castigo será horrendo.

E saio correndo, convoco os meus seguidores para confundir você. A maioria está sempre certa, certo? Não venha tentar fazer enxergar. Ninguém quer enxergar. A ignorância nos conforta e nos faz tão bem... Estamos bem assim. Então sai para lá, eu não quero saber. Eu vou me livrar de você. Xô, xô!

Sabedoria e superioridade assustam os fracos e ignorantes.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Mais além


É difícil não associar a felicidade às pessoas ao nosso redor. Precisamos de pessoas, o difícil é encontrar as pessoas corretas.

Durante a nossa vida, conhecemos milhares de pessoas, mas apenas algumas delas se tornarão os nossos melhores amigos ou affairs. Buscamos pessoas especiais que nos darão apoio em momentos difíceis. Será que nós já não encontramos pessoas assim e não percebemos, ou pior, ignoramos?

Você pode dizer:
― Mas tem tanta gente neste mundo. Como poderemos saber?

Nós criamos uma espécie de filtro. Filtramos as pessoas e também idealizamos aquelas pessoas que “servem” para nós, levando em consideração os nossos gostos, expectativas e a nossa personalidade.

Às vezes ficamos tão focados dentro do perfil que procuramos que acabamos tomando-o como verdade. O que foge do ideal não presta, portanto, o nosso filtro sentencia: descartável.

Descartamos as pessoas porque não temos paciência para conhecê-las mais a fundo. Acreditamos cegamente em nossos rótulos e em nossas teorias mirabolantes sobre o “porquê de as pessoas agirem de tal maneira”, mesmo que tenhamos acabado de conhecê-la há cinco minutos atrás.

Você já deve ter conhecido uma pessoa que a princípio considerava insuportável, mas que hoje, com a ajuda do tempo, descobriu estar errado sobre ela, correto? Claro que isso já deve ter acontecido! Mas o que fez você mudar de ideia? A convivência?

Sim, a convivência nos força a conhecer as pessoas mais a fundo. Ela mostra que os nossos conceitos de “pessoa certa para mim” nos limitam demais, nos fazem fechar os olhos e não enxergar que pessoas fora do nosso ideal podem também ser interessantes. É uma questão de dar uma chance e de dar-se uma chance.

― Ah, mas tem tanta gente no mundo e os meus filtros me ajudam tanto...

Tomemos cuidado com os nossos filtros, ideais e rótulos. Além de nos limitar a conhecer um tipo muito específico de gente, eles podem ser enganosos. Eles podem tornar a nossa busca por conhecer gente interessante mais cansativa e frustrante.

Então que tal largá-los um pouquinho? Será que você conseguirá descobrir a magia do “conhecendo-me, conhecendo-te”? Você está disposto? Você está disposto a enxergar mais além?

domingo, 31 de janeiro de 2010

Receita de bolo


Ela é simples e fácil de fazer. Se algo der errado, a culpa é sua e somente sua.

Ter uma vida feliz e sem grandes problemas é muito simples. Você apenas precisa juntar alguns ingredientes e seguir corretamente o modo de preparo, e voila! Tudo dará certo. Vamos aos ingredientes:

- 1 colher de sorrisos felizes
- 2 xícaras de paciência
- 5 xícaras de compreensão
- 1 ½ xícara de simpatia
- 1 copo de diversão (isto inclui piadas de pontinhos)
- 25 livros de autoajuda

Você pode dizer:

― Mas Chef Florindo, eu segui esta receita e ela não deu certo. EU QUERO O MEU DINHEIRO DE VOLTA!

Mas será que você fez mesmo tudo certo? Será que misturou os ingredientes da maneira correta? Será que não faltou algum ingrediente ou então você usou uma quantidade maior o menor do que a requerida?

A vida é tão simples, mas as pessoas são tão desconfiadas que acham que ela é tão complicada quanto dar um nó em pingo d’água. É como uma receita de bolo, onde se você seguir corretamente o modo de preparo, tudo dará certo e, se algo fugir do planejado... bem... a culpa foi sua por não tê-la seguido rigorosamente.

― Será mesmo? Se fosse assim, teríamos várias pessoas felizes e o que mais vemos por aí é gente egoísta, frustrada e mal-humorada.

Experimente comer o bolo ainda quente ou quando ele não estiver pronto. Não ficará bom e não ponha a culpa no bolo. Tudo tem o seu tempo, meu amigo. E mais uma vez você não está respeitando o modo de preparo! Lembra das duas xícaras de paciência? Elas estão faltando!

― Glanotski, vratski, odubaye! (resmungando)

As receitas de bolo são absolutas. Se algo der errado, a culpa é sua, somente sua. Não tente inventar desculpas. As pessoas não são doidas, não existe gente piruá. Se há algum doido aqui, esse doido é você. E se você quiser saber por que você é doido, compre o meu mais novo livro, na livraria mais próxima!

....

Preciso contar um Segredo para vocês. Na verdade, as receitas de bolo não são absolutas, embora funcionem muitas vezes. Às vezes o bolo não cresce e eu não consigo explicar por quê. Talvez algumas pessoas sejam piruás mesmo, não reagindo ao calor. Bem, eu me alimento de dúvidas...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Infanticídio


E mais uma criança havia sido morta. A mídia nada noticiou. Casos assim eram bastante comuns e não despertavam mais o interesse das pessoas.

Era uma vez uma sociedade onde as crianças não eram bem-vindas. Elas não tinham muito tempo de vida e morriam pouco a pouco a cada ano, em um processo lento e doloroso. Para muitos, isto era natural, era uma dessas “coisas da vida” e nesta sociedade, esperava-se que todos fossem se tornar infanticidas. Havia os infanticidas homicidas e os infanticidas suicidas nela.

Os homicidas eram aqueles que matavam as crianças. Eram pessoas amarguradas, frustradas, tristes, egoístas. Eles o faziam ao destruir sonhos, através de atos ou argumentos. Diziam que a felicidade é uma ilusão e que a infelicidade é um destino certo. Não conseguiam esboçar um sorriso e a alegria alheia era ofensiva. E sempre que podiam, passavam a perna em alguém para poder tirar alguma vantagem.

Havia sinceridade nas crianças. Elas falavam, diziam e agiam de acordo com o que sentiam. Havia brilho no olhar das crianças. Elas conseguiam enxergar o que era realmente encantador. Havia felicidade nas crianças. Elas conseguiam sorrir sem precisar de grandes motivos. Havia pureza nas crianças. Elas não socializavam por puro interesse.

Gritaram: “A criança está sorrindo, arranquem-lhe todos os dentes! Ela deverá ser uma de nós, um corpo vivo de alma morta. Deverá crescer e tornar-se artificial como todos nós”.

Os infanticidas suicidas enxergavam toda essa maldade e não conseguiam encontrar a felicidade onde viviam. Todas essas nuvens negras de sentimentos ruins davam a eles duas alternativas: matar ou morrer.

Você decidiu morrer. Você preferiu matar a sua criança e poupá-la dos homicidas. Foi o seu último ato de proteção. E então você a matou e se matou. Você a converteu e se converteu em mais um corpo vivo de alma morta. Será que você não tinha mesmo escapatória? Por que você matou a criança que havia dentro de você?


domingo, 17 de janeiro de 2010

Bate que eu gamo


O coração é um músculo que o cérebro não consegue controlar.

E eu que achava que estava imune a paixonites bobas e que era capaz de escolher quando eu gostaria de estar apaixonado, peguei uma gripe forte de encantamento. Meu coração fez tum-tum, fiquei com os olhos brilhando e com um semblante sonhador.

As pessoas alertavam-me dizendo que tu não prestavas para mim, mas o coração mandou-me ignorá-las. Ele me dizia que elas estavam com inveja por eu estar apaixonado e gostariam que eu continuasse com elas no Grupo dos Solitários Infelizes Convictos.

Hoje eu quero-te, somente a ti e mais ninguém. Tu tens a essência que eu sempre procurei. Mas ei, por favor, olhe para mim!

Tu me olhaste e eu supervalorizei qualquer besteirinha capaz de derreter meu coração de manteiga. Tudo que tu pedias eu fazia sem hesitar, o que eu menos queria era desapontar-te. E quando eu te desapontava, eu sentia o medo de ter te perdido por causa de bobagens e porque eu não conseguir demonstrar o quanto tu és importante para mim, sei que jamais conseguiria encontrar uma pessoa tão interessante quanto vossa mercê.

As pessoas me alertavam que eu estava cego e tu não sentias nada por mim e que para ti, eu era apenas mais um. Eu pensei em várias maneiras de te agradar e me achava no topo do mundo quando tu respondias “legal”. Havia pessoas interessadas em mim que tentavam me agradar para que eu as notasse, mas eu pedia para elas desistirem porque meu coração estava ocupado. “Tens que gostar das pessoas que gostam de ti”, diziam as pessoas ao meu redor com dor-de-cotovelo. Mas...

Je suis folle
Je m'abandonne
Mea culpa

E é fácil escolher por quem devemos nos apaixonar? O coração é um músculo mimado que não desiste do desejo por mais que seja maltratado.

A angústia, a frustração e o eterno medo de ficar sozinho tomaram conta de mim quando eu vi que na verdade tu pouco te importavas comigo. Não importava o quanto eu tentasse te agradar, eu não ia conseguir nada além de indiferença. Meu coração apenas acordou do transe e libertou o meu acorrentado amor-próprio quando tu começaste a senti prazer em ver-me fazendo tudo o que querias sem hesitar, como um bichinho de estimação obediente.

Então eu acordei para poder desistir. Uma pessoa que quando não é indiferente a mim, quer me fazer de capacho definitivamente não é boa para mim.

O coração é um músculo burro que tende a escolher o que é o pior para ele. É um músculo que desvaloriza o bom e supervaloriza o ruim. Ele pode nos fazer perder o senso do ridículo. É um músculo que sente prazer em ser arrastado pelo asfalto escaldante e sujo da Guiné-Bissau.

________________________________________
OBS: Apesar de escrito em 1ª pessoa, não estou vivendo o que escrevi no post.


domingo, 10 de janeiro de 2010

Caleidoscópio


A pessoa que você realmente é (ou pensa que é) é a mesma que as pessoas ao seu redor pensam que você é?

Quem sou eu? Muita gente um dia já deve ter parado para pensar na pessoa que é, seja para responder a essa pergunta no Orkut, seja porque alguma situação os fez analisar a pessoa que estão sendo ou foram.

Não existe uma resposta exata para essa pergunta, mas podemos chegar perto de teoria aceitável. Ela seria mais bem desenvolvida por uma pessoa que sabe muito bem o que a agrada e desagrada e que sabe reconhecer as próprias virtudes e defeitos.

E mesmo que tivéssemos formulado uma teoria bastante fiel à pessoa que somos, que validade ela teria? Os desconhecidos estabelecem conceitos sobre nós antes mesmo de tentar nos conhecer a fundo. Somente o tempo e a convivência são capazes de mostrar a elas que elas podem ter se enganado. Quem nunca acabou conhecendo uma pessoa que a princípio parecia desagradável e que depois o tempo mostrou a você que ela não era isso ou vice-versa?

E a nossa teoria mais fiel pode não bater com a teoria das pessoas ao nosso redor que convivem conosco. Uma pessoa pode achar você mais ou menos inteligente do que você é, mais ou menos divertido, mais ou menos problemático e por aí vai.

Logo, as teorias que formulamos sobre as pessoas que somos além de ter a validade curta (já que nós estamos sempre mudando, para melhor ou para pior) podem variar de pessoa para pessoa. Então quem somos? Uma pessoa diferente do ponto de vista de cada um? Ou estamos dentro de uma espécie de caleidoscópio onde somos a mesma pessoa, mas vista apenas por ângulos diferentes?