domingo, 18 de outubro de 2009

Statu quo


“In statu quo res erant ante bellum” é uma expressão latina que designa o estado atual das coisas, seja em que momento for. (Wikipédia)

Um dia um homem desejou libertar-se e libertar seus irmãos do statu quo – o estado atual das coisas. Ele sonhava com um mundo onde todas as pessoas pudessem viver em nível de igualdade, onde ninguém fosse melhor nem pior do que ninguém.

Em uma noite qualquer, ele adormeceu profundamente e sonhou... Sonhou com uma fada que concedera a ele o poder de romper com o statu quo e foi o que ele fez...

As coroas dos reis e rainhas caíram no chão e quebraram-se. Sua vida de luxo e poder havia acabado e agora eles eram pessoas comuns, membros da plebe. Enquanto isso, os mendigos das ruas ganharam um banho, roupas limpas, uma casa confortável, emprego, mil coisas...

A modelo linda e perfeita da revista de moda e beleza ganhou rugas, estrias e um cabelo odioso. A adolescente gorda, feia e depressiva perdeu quilos e quilos, seu rosto marcado pelas espinhas ganhou um aspecto mais liso, seu aparelho nos dentes desapareceu...

O intelectual não era mais tão inteligente para impor seu bom gosto, qual música prestava, qual vinho prestava, não sabia mais se expressar e mudar a opinião dos outros através de sua inteligência. O ignorante parou de ouvir os ruídos da rádio e TV. Desligou a TV, contestou a imparcialidade do jornalismo, abriu os livros e enxergou um horizonte totalmente novo.

O mal parou de causar dores a si e aos outros. Aceitou a imperfeição, livrou-se de todo o ódio, raiva, mágoa, rancor, inveja. O bem enxergou um mundo menos cor de rosa. Via agora tons de vermelho-sangue, preto-cadáver e coelhinhos fofos com olhares malignos.

Ao mesmo tempo em que ele rompera com o statu quo, ele criara um novo statu quo! Ninguém se destacava. Todos agiam de forma parecida, tinham ideias parecidas, tinham uma beleza parecida, viviam uma vida parecida.

Desesperado, ele correu até o intelectual para tentar entender porque as coisas estavam iguais e as pessoas não estavam finalmente felizes por viver em estado de igualdade. O intelectual respondeu:

- Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Teresa. Em fevereiro, em fevereiro, tem carnaval... Meu amigo, este é um assunto difícil demais para mim entender.

Não era apenas difícil demais para o intelectual entender, mas como para qualquer um naquela sociedade igualitária, sem ricos e pobres, sem feios e bonitos, sem intelectuais e ignorantes, sem o bem e o mal.

O homem acordou com a cabeça cheia de dúvidas, mas elas logo se esvaíram e ele as esqueceu. Sua inteligência era muito mediana para ele poder pensar e entender se romper com o statu quo era algo bom ou ruim...


domingo, 11 de outubro de 2009

Cérebro de massinha


É mais fácil construir um menino do que consertar um homem. (Charles Chick Govin).

Imagine o nosso cérebro como uma grande massa de modelar. Uma massa suscetível a manipulações e a mudança de ideias, que podem ser positivas ou não. Mas não pense que ela é totalmente maleável. Algumas partes ressacam, não podendo mais sofrer qualquer tipo de manipulação ou mudança.

As crianças podem ser facilmente manipuladas. Como ainda são muito novas e sabem pouco da vida, elas acabam absorvendo informações de pessoas que impõe respeito a elas.

Os filhos costumam ser reflexos dos pais. Isto pode ser um grande problema, uma vez que muitos deles sejam frutos de uma gravidez indesejada, sendo tratados como estorvos. Muitos pais não se preocupam em ser bons exemplos aos filhos e os expõem a diversas situações desagradáveis.

Os pobres também são presas fáceis dos manipuladores. Muitos não têm o estudo necessário para desenvolverem o senso-crítico próprio e muito menos a inteligência para contra-argumentar. A falta de vontade de correr atrás de conhecimento e da verdade faz com que eles sejam o alvo principal de políticos em tempos de eleição, como todos nós já sabemos.

Ter um cérebro de massinha é ruim então?

Nem sempre. Como ninguém é o dono da verdade, é importante que estejamos sempre abertos para algumas mudanças de opinião que podem ser necessárias. Mudanças que podem evitar a injustiça, o sofrimento, o retrocesso. O problema é estar aberto demais a novas ideias. Isto pode ser enlouquecedor. Em um momento, você acreditava na verdade pura depois, abriu-se à mentira, que marcou território e expulsou a verdade da sua cabeça.

Estar fechado demais pode poupar você de situações como esta, mas também podem transformar você em um ignorante convicto. É como sentir-se um pecador quando você ousa contestar qualquer coisa que possa estar errada na sua religião, por exemplo.

O ideal mesmo é armar-se de conhecimento. Estudar e ir atrás de verdade. Assim, haverá partes maleáveis no seu cérebro para receber a verdade e partes ressecadas para repelir a mentira e inutilidades.