domingo, 3 de maio de 2009

Falso moralismo


Eles condenam os outros por algo que eles também fazem. Eles defendem uma moral que não existe mais. Eles são os falsos moralistas.


Ser sincero é sempre algo difícil. Quando falamos a verdade, corremos o risco de desagradar alguém, o que pode custar a nossa paciência, a nossa paz, a nossa amizade, o nosso emprego ou até mesmo a nossa vida. Todos nós sabemos que a sociedade estabelece padrões e opiniões para que os cidadãos sejam aceitos e respeitados até certo nível. Por causa disto, é muito mais fácil ser hipócrita e condenar outros por coisas que nós também fazemos escondidos.


É muito comum vermos pessoas nuas ou seminuas durante o desfile das escolas de samba no carnaval. Com exceção das velhinhas e de pessoas muito religiosas, isso não tem nada de anormal e não é nada condenável. Por outro lado, um topless na praia pode chocar muita gente. Por que andar quase sem roupa no carnaval é aceitável e um topless é condenável? Por causa das crianças? As crianças também participam do carnaval e os desfiles são reprisados durante a tarde, sendo que uma pintura ou purpurina funcionam como a tarja preta.


Na semana passada, a vice-colocada no concurso de Miss Estados Unidos causou polêmica (ler). A Miss Califórnia disse que “dentro da criação dela, ela acredita que o casamento deveria ser entre um homem e uma mulher”. Ela recebeu vaias e aplausos e plantou o ódio no coração de alguns jurados, especialmente do jornalista (uma espécie de Leão Lobo dos ianques) declaradamente gay que formulou a pergunta.


Embora eu discorde da opinião dela, eu não acho que a Miss Califórnia tenha cometido crime algum. De uma hora para a outra, os EUA, um país de homens e mulheres “livres” passou a condenar a Miss por sua declaração. Ela pagou um preço alto por não ter bancado a falsa moralista e ter dito algo do tipo “se somos mesmo livres, o casamento entre pessoas do mesmo sexo deveria ser legalizado em todos os Estados Unidos da América”. Ela foi diplomática ao acrescentar “sem querer ofender ninguém”, mas não adiantou. Movimentos GLBT e a mídia estadunidense condenaram-na por ela ter sido sincera naquele momento. De uma hora para a outra, um país conservador (o casamento entre pessoas do mesmo sexo é permitido em apenas quatro estados) passou a ser a favor da causa homossexual.


Somos falsos moralistas quando vamos contra as nossas vontades e crenças, mas temendo a reprovação da sociedade, agimos de acordo com seus padrões e opiniões pré-estabelecidos. Em 2001, a participante do No Limite 3, Cláudia Lúcia, deu uma declaração que foi taxada de racista (relembre). É claro que sua declaração foi preconceituosa, porém ela foi sincera e não bancou a falsa moralista, alguém que diz “eu adoro os negros” e que por trás diz “odeio preto”. O mesmo ocorre com aqueles que dizem “adoro os gays” e depois os chamam de “viados”.


Ninguém é obrigado a gostar de pessoas com quem não se tem afinidade, porém é importante lembrar que a justiça e o respeito devem prevalecer. O que devemos fazer? Sermos sinceros e nadarmos contra a maré da hipocrisia ou nos escondermos atrás do nosso falso moralismo para que não corramos o risco de sentir a fúria da sociedade?

5 comentários:

  1. vc é sempre uma boa leitura e muito coerente com o que pensa hein? gosto muito de passar aqui, só que passo com tempo para poder pegar direito a mensagem...

    Concordo com o que disse. Não acho certo quem diz que casalmento, relacionamento, envolvimento em público dos homossexuais devem ser inibidos. Esse relacionamento é o que menos pode prejudicar nossa sociedade. Acho que mais que nos preocuparmos com quem fulano está ficando, saindo, casando, se é do mesmo sexo ou não, precisamos pensar se a pessoa está ou não feliz, só!

    Mas acho que quem não concorda tbm deve ter o direito de dizer que não concorda. Por exemplo, acho justo quando os bispos dizem na tv que homossexualismo é contra a doutrina deles, é fato. não concordo em ele ser contra, mas é legítimo dizer que não pode isso na religião dele...

    Mas como as pessoas confundem não concordar com agredir, segregar, ofender e machucar, acabam-se criando formas de evitar que alguem se posicione contra as minorias...

    Bom mesmo seria se cada um só se preocupasse com os seus gostos e deixasse os gostos opostos seguirem da forma que acharem melhor...

    COmo sempre, otimo texto...

    http://apenas-daniel.blogspot.com/

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  2. Assisto um seriado chamado 'Queer as Folk' que trata desse problema e de muitos outros.

    Vale a pena assistir também pela discussão.

    As pessoas são hipócritas e isso é fato.

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  3. é ironico viver em uma sociedade q verdade nao é estimada ou respeitada, q o indice de boa educação é ser hipocrita e cinico sendo q nosso cerebro acha mais facil falar a verdade do q mentir, vai entender

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  4. Realmente você tocou em um ponto interessante. (In)Felizmente,ou não, caminhamos para uma sociedade onde o politicamente correto reina sobre todas as coisas. É quase como uma religião. O que é bom por um lado, as pessoas se conscientizam de que discriminar minorias é irracional e burro, mas pode também ter um efeito negativo curioso: as pessoas FINGEM estar conscientizadas com discursos belos, mas continuam com suas convicções infundadas.

    O que se deve fazer? Em uma conversa com os amigos, familiares e outras esferas da vida social, creio que a verdade sobre o que se pensa, por mais que gere divergências, é sempre o melhor caminho. Afinal, debates sobre temas polêmicos é a única forma de acabar com conceitos obscuros e intolerantes.
    Mas estas regras não se aplicam a uma pessoa pública, em momento público. Creio que a Miss perdedora foi mais do que homofóbica, ela foi BURRA! SIM. Ou ela imaginou que responder a pergunta de um homossexual, jurado influente no concurso, se mostrando contra o casamento gay era algo inteligente a se fazer, visando que o objetivo dela era vencer? Ela não precisava mentir ou ser hipócrita, mas poderia deixar de ser miss apenas por um minuto (estou eu agora sendo preconceituoso?) e usado sua mente para formular sua resposta com um pouco mais de diplomacia. Antes tivesse ficado em cima do muro e coroada, do que perdedora detentora da verdade.
    Se bem que.... no estranho mundo em que vivemos, ela conseguiu mais repercussão e fama que a vencedora do concurso. Vai entender...

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  5. ...Creio que o importante, quando se expor uma visão racista, homofóbica, especista, ou preconceituosa de qualquer forma, é salientar que está visão é SUA, INDIVIDUAL, e não promover e mostrar que não pretende promover suas verdades;

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