domingo, 31 de maio de 2009

Criança selvagem


Elas nasceram e cresceram sem família, embora algumas tivessem tido pai e mãe. Elas foram deixadas de lado, esquecidas e mal-tratadas.


A criança selvagem não estava programada para vir ao mundo. Ela foi mais um desses “acidentes”. Sua mãe foi expulsa de casa e juntou-se ao seu pai em um barraco na favela, não muito longe de onde moravam.


Sua mãe o via como um estorvo que lhe roubou a liberdade e que se via obrigada a cuidá-lo. Ele por várias vezes apanhava quando chorava de fome. Seu pai era ausente e constantemente chegava em casa bêbado e também batia nele se fizesse barulho demais ou chorasse por estar o dia todo sem comer.


A criança selvagem passou frio e não tinha muito o que vestir além de roupas largas, sujas e rasgadas. Ele também não tinha brinquedos. A amizade verdadeira ele não conhecia e não tinha muitas opções. Ou ficava isolado em casa sendo maltratado por sua mãe drogada ou se juntava aos moleques que desde pequenos falam em assassinato.


Na escola não conseguia estudar. Os professores faltavam com frequência e não ensinavam. Não somente a criança selvagem, mas como todos os outros poucos alunos não se sentiam motivados a seguir um modo de vista honesto.


Aos seis anos, a criança selvagem já trabalhava fazendo malabares nos sinais. As pessoas tinham medo dele, fechavam os vidros e os poucos que lhe davam algum dinheiro lhe davam em moedas que raramente tinham valor maior do que cinquenta centavos. Embora pretendesse usar o dinheiro para comprar algo para ele, era obrigado por seus pais a entregar tudo a eles.


A criança selvagem nasceu e cresceu sem família, sem amigos, sem esperança. Seu destino certo era o crime, era o tráfico, era matar ou morrer. Ele se achava tão esquisito quando via dois irmãos se dando bem, uma mãe abraçando um filho, um grupo de jovens bonitos em uma escola de bacanas. Aquilo tudo estava completamente fora da sua realidade.


Mas havia pessoas que diziam que ele podia mudar aquilo se quisesse. Ele precisaria estudar, trabalhar, tentar sair da favela, vencer. Mas ele estava envolvido pelo desânimo e pela desesperança.


As escolas eram péssimas: como ele conseguiria se formar se mal conseguia ler aos 16 anos? Quem daria emprego a um favelado sem estudo? Como conseguiria sair da favela sem dinheiro? Só mesmo o crime. Que opções tinha a criança selvagem? Ele sempre se sentira inferior e seus sonhos eram meras ilusões. Família, escola, amigos, roupas, comida. A vida também tinha lhe roubado o direito de sonhar.


Embora parecesse amargo e frio, a criança selvagem era frágil. Ele se sentia muito mal toda a vez que as pessoas percebiam que ele as olhava, como se ele estivesse pronto para assaltá-las. Ele se sentia mal por estar morto de fome e não ter dinheiro algum pra comer. Ele se sentia mal quando a sociedade o tratava como lixo, como um rato transmissor de doenças. Ele sentia a rejeição e na favela, mergulhava no buraco negro da desesperança, mas se sentia menos mal por não ser o único.


A criança selvagem se perguntava como as pessoas podiam ser tão cruéis para ignorar não só o sofrimento dela, mas como também o de outras crianças? Crianças que desde que nasceram tinham um destino quase certo. Perderiam a sua infância saudável e feliz. Seriam agredidos pelos pais, obrigados a trabalhar desde cedo, passar frio, fome, conviver com a violência e o medo da morte e a não terem a oportunidade de crescer como crianças saudáveis com pais, amigos, uma escola de qualidade e um emprego honesto. A criança enxergava um mundo egoísta que ignorava o seu sofrimento e que dormia tranquilo em uma cama limpa e macia.

11 comentários:

  1. Vejamos: acredito que aqui,aparecerá vários comentários hipócritas, do tipo "É, ninguém ajuda essas cricanças, as pessoas são muito egoístas, não pensam no próximo...". Ora, somos todos hipócritas. Nem eu estou livre. Enquanto estou aqui falando de hipócritas, cometo hipocrisia porque poderia, nesse momento, ajudar a algum "favelado".
    Realmente tenho dó dessas crianças, mas nem tanto. Nem tanto quanto tenho dos animais abandonados, pois a esses não restam nem a opção do crime ou das esmolas. Uma vez fui ao mercado, e na porta, em pleno frio, encontrava-se uma senhora com a cara de ser a mais coitadinha do mundo, dizendo "Me dê uma ajudinha pra eu comprar um leite pra minha nenemzinha"...a vontade que tive foi de entrar no mercado e comprar preservativos pra entregar a ela. Claro que não fiz isso, mesmo porque eu ficaria como a vilã da história...a "sem-coração". Mas eu me pergunto: Que tipo de pessoas são essas que preferem se entregar ao prazer da carne, sem pensar nas consequências? Ou seja, em uma criança sem amparo, educação e saúde? E não venham me dizer que a culpa É SÓ do governo, porque pelos aqui, na minha cidade, os postos dão (e de monte) preservativos e anticoncepcionais. E mesmo que não desse, por que essa mulher não ficou na porta de uma drogaria dizendo "me deem uma ajudinha pra eu comprar uma camisinha porque não quero por uma criança pra sofre no mundo"?

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  2. Adoro seu blog amigo, mas achei esse texto meio tendencioso. Sim, existem milhões de "crianças selvagens" no nosso país. Mas discordo do crime como única saída. O que não falta é trabalho no nosso país, que vive basicamente de turismo e serviços. Sim, a falta de estudos e oportunidades dificulta a entrada no mercado de trabalho. Mas trabalho-trabalho não falta. Conheço de perto gente pobre e de bem, que consegue viver, dar comida e estudos aos filhos trabalhando,sustentando uma família inteira como pedreiro ou caminhoneiro, lutando, ainda, contra o vício da bebida. Essa família que eu cito como exemplo vive num bairro muito simples de sampa, cercado pela marginalidade e pelas bocas de fumo, mas quando se tem princípios, se vive com dignidade. Beijos

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  3. É. É muito dura a realidade dessas crianças. Muitas vezes não entendemos certos comportamentos, como o envolvimento delas com o crime, com as drogas, com a prostituição etc., mas elas vivem num contexto totalmente diferente do nosso. Não dá pra achar que poderia ser diferente, pois enquanto a realidade delas for essa (desamparo, desinteresse do governo, discriminação), elas continuarão a roubar, a se drogarem e a se prostituírem. A vida de um morador ou de um favelado é muito mais dura do que podemos imaginar.
    O que fazer diante dessa situação? Sinceramente, não sei responder. Enquanto não houver resposta, continuaremos fechando o vidro de nossos carros, desviando deles nas ruas, dando esmolas, pois a criminalidade não está brincadeira.

    Fica a pergunta: como ajudar essas crianças???

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  4. Cara, uma das coisas mais bacanas que li nos últimos tempos! Triste realidade. O que há de "crianças selvagens" por aí...

    :>(

    Me dê a honra de sua visita. Passa lá no "Diz":

    www.marcelo-antunes.blogspot.com

    Abração, meu velho!

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  5. Olá, estou voltando com o meu blog, e é um grande prazer saber que ainda há blogs consciente assim como o seu. Bom o texto é uma realidade não há como negar, mas acredito que a solução está na educação. Eu talvez um utopico, mas acredito que havera pessoas com consciencia politica e condição para isso que fazerão grandes transformações na politica e consquentemente na sociedade. só atraves da educação poderemos mudar essa e muitas outras triste realidade.

    Gostei da forma como tu escreve, bem bacana envolvente...

    até mais passa lá no meu blog

    http://blogpedrojunior.blogspot.com/

    Abraço e uma ótima semana!

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  6. É como dizem, o que os olhos não veem...
    ...a vida esfrega na cara!!!!

    Isso aew Peter... A realidade é
    dura, mesmo assim não deixa de
    ser a realidade...

    muito show o blog...

    Sucesso pra você!

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  7. Ola! Vim conhecer seu blog e adorei! Vc escreve muito bem, voltarei mais vezes!
    Sinta-se a vontade para frequentar o nmeu cantinho tb!^^
    Quanto ao texto, expressou mto bem a triste realidade de muitas crianças 'selvagens' do nosso Brasil... dá dor na consciência, por pais tão desatentos!
    Bjos

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  8. É triste ver crianças pagando pelos erros de seus pais. Sendo maltratadas, excluidas por desleixo de quem tem a obrigacao de cuidar.

    Tbm é triste ver seres como esse em cima do meu comentário.
    kKk... falta do que fazer...

    Em relação ao comentário que vc fez... Fiquei feliz por ter gostado da ideia, porém, não dá pra usar essas letras que vc citou. Qual palavra escolheria com o A com acento ao contrário? Nem o cedilha, não existe pelavra que comece com ele. Mas pensarei em fazer um post sobre essas letras de outros idiomas. Sugestão anotada e agradecida.

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  9. Já comentei esse, mas é que tem post novo lá no blog. :)
    bjo

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  10. Bom, pra não ser hipócrita, cuido de mim antes de cuidar dos outros, e sim, sou egoísta.

    Tenho certo dó de histórias como essa, que se repetem todos os dias em vários lugares do Brasil e do mundo, mas infelizmente estou incapacitado de fazer algo no momento atual, e como dizem, "uma andorinha só não faz verão" e as tentativas de motivar outras andorinhas já não funcionam, estão todos vacinados pela televisão.

    E fingem espanto ao ver vídeos como o que o Brasil "chocou-se" a assistir essa semana na televisão.

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  11. Muito lindo aqui e realmente temos que ter o habito da leitura e uma união de blogueiros honestos.

    Vim Trazer uma linda Menssagem

    A ARTE DE SER FELIZ

    Acorde todas as manhã com um sorriso. Esta é mais uma oportunidade que você tem para ser feliz. Seja seu próprio motor de ignição. O dia de hoje jamais voltará. Não o desperdice, pois você nasceu para ser feliz!
    Enumere as boas coisas que você tem na vida. Ao tomar consciência do seu valor, você será capaz de ir em frente com muita força, coragem e confiança! Trace objetivos para cada dia. Você conquistará seu arco-íris, um dia de cada vez. Seja paciente.

    Não se queixe do seu trabalho, do tédio, da rotina, pois é o seu trabalho que o mantém em alerta, em constante desenvolvimento pessoal e profissional, além disso o ajuda a manter a dignidade.

    Acredite, seu valor está em você mesmo. Não se deixe vencer, não seja igual, seja diferente. Se nos deixarmos vencer, não haverá surpresas, nem alegrias ... Conscientize - se que a verdadeira felicidade está dentro de você. A felicidade não é ter ou alcançar, mas sim dar. Estenda sua mão. Compartilhe. Sorria. Abrace. A felicidade é um perfume que você não pode passar nos outros sem que o cheiro fique um pouco em suas mãos.

    O importante de você ter uma atitude positiva diante da vida, ter o desejo de mostrar o que tem de melhor, é que isso produz maravilhosos efeitos colaterais. Não só cria um espaço feliz para o que estão ao seu redor, como também encoraja outras pessoas a serem mais positivas.

    O tempo para ser feliz é AGORA.

    O lugar para ser feliz é aqui!


    TENHA UM LINDO E MARAVILHOSO DIA E FIQUE COM DEUS.

    De Antonio O blog da sua leitura Diária

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