sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Segredos

Se ele é amor ou paixão, não tem certeza. Apenas tem certeza de que gosta. E gosta em segredo.


Não, não gostava dele a princípio. Achava-o arrogante, aquele tipo de pessoa que vivia em balada e que pegava todas. Declarou-o como rival, mas não sentia raiva. Tinha uma pontinha de inveja dele e queria provar-se melhor que ele. Competiu essa competição solitária por alguns meses. Ela acabou quando descobriu que ele não estava bem. Que ele estava arrasado, decepcionado, quem sabe até mesmo depressivo, chorando sozinho em um canto como uma criança.


Então viu que estava sendo egoísta e infantil por todo esse tempo. Nunca o tinha visto como um rival ou algo assim. Nunca havia desejado algo ruim para ele. Apenas gostaria de parecer que era melhor, mais eficiente, superior. Ele não era o cara arrogante que imaginava. Se estava chorando, não poderia ser isso. Havia sido apenas uma má impressão.


Ele entrou em crise, então sentiu sua falta quando ele se ausentou. Quando ele retornou, passaram a conversar. Com o passar do tempo, ele foi superando a crise e a alegria de antes e passou até mesmo a brincar com a pessoa que o via como rival, mesmo que nunca chegasse a saber que ela o considerava assim.


Um dia, encontrou alguém parecido com ele. Algumas características eram parecidas. A estatura baixa, o jeito brincalhão, o físico, um pouco de meiguice e até mesmo a voz. Mas este alguém lhe pisou e um pouco do afeto que sentiu por ele foi transferido ao outro.


Ele era uma outra pessoa, uma outra história, não era como o outro que lhe pisou. A rivalidade deu espaço para a preocupação, a preocupação para uma leve estima, e a estima para a atração. E a atração proporcionou uma maior atenção a ele. Tudo o que ouvia e descobria sobre ele era captado com facilidade. Algumas dessas coisas fizeram que pensasse que ambos poderiam ter algo em comum. Sim, ele tinha umas brincadeiras não muito comuns, falava coisas que, mesmo que estivesse brincando, fazia o pessoal suspeitar dele e pegar no seu pé. Isso alimentou suas esperanças. A atração ia crescendo.


E entrou na Floresta da Ilusão quando, um dia, ele lhe chamou em um canto e, surpreendentemente, tirou a camisa. Não sabia como reagir. Não sabia se olhava ou não. Queria olhar, mas estava com vergonha. E olhou. E quando olhou, queria poder tocar, mas isso poderia acabar não dando certo, então, não o fez. Quando ele perguntou se ele estava forte ou não, mesmo com vergonha, disse que sim. Depois da surpresa, a esperança tomou sua conta.


Pouco tempo depois, mesmo descompromissado, foi vê-lo. Precisava vê-lo. Precisava esclarecer algumas dúvidas. Não gostaria de ficar com aquela dúvida na cabeça por muito tempo ou de perder um bom tempo de sua vida amando ou sentindo uma forte atração por ele se não houvesse como dar certo. E as esperanças se esvaíram e caiu de joelhos no duro chão da realidade. Não poderia amá-lo. Ele estava comprometido. Contou-lhe sobre um furo que ele havia deixado, tentando arrancar dele algum segredo que pudesse lhe devolver as suas esperanças novamente. Ele sorriu como se estivesse questionando “que papo é esse?” Despediu-se e voltou para a casa um tanto infeliz, mas a esperança nunca o abandonou.


Ficaram alguns meses conversando o necessário. Tornaram-se grandes amigos quando as crises de ambos os fizeram de aproximar. Sentia a falta dele quando ele ia para a casa sem se despedir. Sentia ciúmes quando ele falava da namorada dele. Sentia ciúmes quando ele ficava excitado olhando para mulheres sensuais com um cachorro fica doido por uma cadela passa a ser cadela (nos dois sentidos). E sente a atração, sente o desejo. Admira o físico, admira o sorriso, admira a meiguice misturada com safadeza, a coragem, suas idéias, o humor... Gostaria de poder abraçá-lo, mas não poderia. Gostaria de poder beijá-lo, mas não poderia. Gostaria de poder possuí-lo, de que ele fosse seu, mas crê que o que sente é apenas um amor platônico que não poderia dar certo, mesmo que haja uma pontinha de esperança.


Seu coração é doce, puro, ingênuo e um pouco infantil. Sabe que o ama. E o ama em segredo.

17 comentários:

  1. Eu estava impaciente, e resolvi não ler textos "grandes"...

    Mas você me prendeu a atenção... ah! ler sobre o amor nunca parece tedioso pra mim, desde que bem escrito... e vc preencheu o requisito.
    Parabéns pelo texto.

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  2. Diria que algumas pessoas lerão, mas terão medo de comentar.
    Eu, como hetero, nunca senti nada parecido... mas é um tanto interessanter ler a naturalidade com q vc passa a situação...
    Realmente, não é natural pra minha pessoa, não faz parte da minha realidade, mas a maneira como vc expressa isso... faz parecer natural até pra qm não é.

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  3. O texto é extremamente sensível.
    Afável. Adorei...
    Acho que amores são esquesitos...acho que amores são como bolo. Quando chega, ele é tão imenso e sumerento que vamos afobados e sem cautela comer...acabamos com a língua queimada e uma bela dor de barriga...
    E esses amores platônicos...amores platõnicos me ocorrem com tanta facilidade que estou afim de despedir meu cupido...rsrsr
    abraços e bjomeliga...

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  4. Olá,
    eu acordei faz uns 30 minutos e cá estou.
    Este foi o primeiro texto do dia que eu li e não tenho palavras para comentar.
    Você escreveu algo que poucas pessoas tem coragem de escrever e fez isso com tanta pureza e profundidade que nos faz refletir sobre o que é o verdadeiro amor.
    O melhor presente que ganho é poder acordar e ler textos tão bons quanto o seu!

    Parabéns!

    Abraços,

    Daniel.
    www.jornalaespinha.zip.net

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  5. É isso aí o Amor não tem medo nem pudores , nem formas pré determinadas ele simplesmente acontece e não precisa satisfações ou regras , a única regra é amar sem se preocupar com o mundo

    Abraços e realmente é um post sensível , puro e que prende a atenção

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  6. adorei o texto, porém me confundi bastante, seria melhor se os personagens tivessem sido nomeados...=D

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  7. Nossa que texto bom!
    Os segredos são passados até nos nomes, mas eu entendo essa parte, eu também prefiro não nomear minhas personagens. Poxa foi de uma extrema sensibilidade a forma com que você passou o texto, muito bom mesmo!

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  8. Texto super profundo e escrito com muita sensibilidade.
    Essas coisas costumam ser um tabu, é difícil das pessoas falarem, é meio que um preconceito.. Mas você soube falar com todo cuidado e toda inocência de um amor verdadeiro. Adorei.

    E sobre a previsão do meu blo, se serviu de incentivo pra você fazer deste ano, um ano melhor, está ótimo, mas o que vale mesmo é seguir seu coração, mais do que o que estava escrito lá! ;)


    Beijos*

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  9. Magina. Fico feliz por te incentivar a escrever.

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  10. "Ficaram alguns meses conversando o necessário. Tornaram-se grandes amigos quando as crises de ambos os fizeram de aproximar. Sentia a falta dele quando ele ia para a casa sem se despedir"

    é nóis.
    uaheuhea.

    e sobre minhas contradições, beibi.. eu sou uma delas e foge da minha mão fazer com que o que eu digo faça algum sentido; prq cê sabe, né? cest la vie.

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  11. Que texto bacana, parabéns, conseguiu me surpreender. Continue assim.

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  12. hum, no começo do texto me confundi, mas depois fui entendendo.

    Perfeito, transmitiu de forma um tanto verdadeira algumas situações da vida.
    O amor (ou a paixão) não escolhe quem é a vitima de seus desejos...

    bjos

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  13. você escreve muito bem
    de verdade mesmo

    vou linkar seu blog no meu pq ele vale realmente a pena de ser lido
    (:

    beeijos

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  14. simplismente lindo vc escreve com a alma... Independente de qualquer coisa o amor está acima... e vc provou isso;.. Parabéns... Bjus

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  15. cara, primeiro de tudo, eu me desculpo por não ter aparecido antes, sai de férias e voltei hoje. Li teu comentário no meu blog e fico feliz que vc tenha curtido o texto, tambem me identifico pra caramba com alguns textos que eu leio aqui XD; bom, o que posso dizer, vc me perguntou quem era o cara do meu texto, na verdade é umas mistura de eu mesmo e algumas coisas que eu invento; acho que não consigo escrever se tirar inspiração da minha própria vida, mas a situação do texto não existe. Só as indagações, essas são minhas XD

    e sobre o teu texto, puxa vida...
    Eu começei a ler, parei, reli de novo pq eu achei que não estava entendendo muito bem. Mas ai na medida que o texto foi fluindo meio que caiu a ficha e sim, eu pude enteder. E minhs duvidas acabaram qdo eu li o comentario do pessoal ai de cima.
    Bem, o que eu posso te disser. Acho que o que tenho pra comentar tds já o fizeram, texto incrivel, sutil, cheio de sensibilidade. Você teve alguma inspiração pra fazê-lo? Sabe, a verdade é que eu tenho algumas perguntas pra fazer pra vc mas não cabe fazê-las. Eu posso entender o que o personagem sente e isso basta. Você está de parabéns!

    abração!

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  16. Ai, fiquei encantada com seu texto! Muiiiiito mesmo! Talvez porque todo mundo conheça uma vez na vida o peso de se amar em segredo!

    (www.pollyok2.zip.net)

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