domingo, 23 de setembro de 2007

Pessoas invisíveis


Eles estão por aí, principalmente nos centros das grandes cidades. Nós passamos por eles e não nos damos conta. Já fazem parte da paisagem. Eles são pessoas invisíveis.


É um dia como todos os outros. Você acorda, toma um banho, toma o café, liga o carro e sai para ir trabalhar. Em uma avenida, o sinal fecha e você fecha as janelas. Você sabe que quando o sinal fecha, as crianças pobres invadem o trânsito parado. Algumas fazem malabarismo, outras oferecem doces e algumas pedem esmola. Quando o sinal abre, você segue normalmente como sempre.


Ao chegar ao trabalho, você limpa seus pés no capacho que a faxineira acabou de limpar e vai pegar um copinho de café. O seu chefe lhe chama e você deixa o copo de café em qualquer lugar. Recolher o copo de café e joga-lo no lixo é trabalho da faxineira mesmo... Perto do meio-dia, você e seus amigos saem do escritório e vão a pé ao restaurante.


No caminho, uma mendiga com um de seus filhos no colo pede por ajuda para... Para quê mesmo? Vocês não pararam para ouvi-la. Provavelmente ela queria dinheiro para comprar bebida depois. A rua está lotada de gente. São velhotes sentados nos bancos da praça alimentando os pombos, pessoas gritando, vendendo seus produtos artesanais e pessoas oferecendo panfletos. Você não recolhe nenhum panfleto. Passa direto como se ninguém tivesse lhe oferecido nada. Finalmente, vocês chegam ao restaurante.


Lá vocês sentam-se numa mesa e seu amigo chama um garçom que aparenta estar já na casa dos 60 anos e fazem o pedido. Quando ele traz a comida, seu amigo vê um fio de cabelo no prato e reclama com o garçom, dizendo que é um erro a contratação de um velho senil para tal função. O garçom responde serenamente: “Desculpe, senhor. Isso não irá mais se repetir.” Seu amigo resmunga e o garçom traz o prato, desta vez, sem cabelo. Na hora do pagamento, vocês não pagam gorjeta e voltam ao escritório.


Ao final do expediente, você sai do escritório, pega seu carro e vai ao posto de gasolina abastecer o tanque. Ao chegar lá, é recebido por uma negra de aparência não muito agradável. Ela fala demais, parece uma matraca, então, você decide ligar o som. No momento do pagamento, ela agradece e você arranca o carro sem responder e se dirige ao supermercado.


Você está lá com seu carrinho que não vira para a esquerda de jeito nenhum e começa a reclamar alto. Como se isso não bastasse, você encontra um produto sem preço. Impaciente, você chama pelo repositor mais próximo: “Ei, rapaz, vem cá”. Um rapaz cheio de espinhas lhe atende você pergunta: “Você trabalha aqui?”, mesmo vendo aquele garoto com o uniforme da empresa. Ele acena com a cabeça em sinal positivo. Você pergunta em tom de ironia: “Essa bolacha aqui está sendo vendida de graça? Não estou vendo o preço aí”. O repositor consulta o preço no terminal de consulta logo atrás de você e responde: “Está R$ 5,89”. Você leva um susto: “Cinco e oitenta e nove? Essa porra é de ouro?” O rapaz fica extremamente constrangido e volta a fazer o que estava fazendo antes. Você faz as compras e pede para entregar em casa, mesmo estando de carro. Eles entregam na sua casa, você atende e os deixa descarregando as comprar, sem ajudar em nada.


[...]


Você percebeu quantas pessoas invisíveis estiveram presentes no dia-dia do personagem central desse texto? São várias pessoas que encontramos nas cidades e que não nos damos importância de sua presença, talvez pelo fato de eles já fazerem parte da paisagem. É comum vermos crianças nos sinais, pessoas pedindo esmola, pessoas distribuindo panfletos e pessoas sem estudo que fazem serviços mais humildes que são ignoradas no dia-dia, como se não estivessem ali. São pessoas constantemente humilhadas e que já estão acostumadas com essa situação.


Porém, eles são pessoas como todas as outras, que tem coração, que tem sentimentos, tem família... Pessoas que gostariam de um pouco de atenção e principalmente respeito por parte da sociedade. São pessoas vítimas do estresse alheio, como aquele “velho senil” que trabalhava de garçom, a frentista do posto, o repositor de supermercado, entre tantos outros. Será que geralmente nos damos conta disso?

domingo, 16 de setembro de 2007

Ouça música, não barulhos


O que você considera música boa? O que as diferencia das demais? O que são barulhos? Por que você não considera essa tentativa fracassada de música como tal?


A música sempre teve uma grande importância na minha vida. Elas sempre me trazem alguma lembrança ou alguma sensação do passado. Muitas das músicas que estão no meu PC me lembram algo. E são músicas dos mais variados ritmos.


O nome desse post foi inspirado em uma sugestão que meu amigo do MSN, Marcelo D’Aquino, 20 anos, deixou para os visitantes de seu Fotolog: “Ouça música de verdade, não barulhos”. Achei essa sugestão divertida e interessante, já que muita gente ouve e gosta de qualquer porcaria que esteja na moda.


Música de verdade é aquela com um som agradável e criativo. A voz do artista tem que ser bonita e combinar com a melodia. A letra tem que ter sentido, ser agradável, aquele tipo de letra que quem ouve não esquece. No Brasil, há um rótulo criado por pessoas mais cultas de que música boa seriam MPB e Bossa Nova, basicamente, porém, alguns “intelectuais” também consideram samba e pagode como música! Já para os intelectuais dos Estados Unidos, os ritmos que eles consideram música são o jazz, o blues e o soul. Porém, esses gostos estão mais restritos aos tais “intelectuais”.


Quem produz música de verdade não fica o tempo todo no alvo da mídia como os produtores de barulhos, mas mesmo assim, são reconhecidos e conseguem manter sua carreira por anos. Por exemplo, no Brasil, Djavan, Roupa Nova, Ana Carolina não estão o tempo todo nos programas de televisão e suas músicas não tocam loucamente nas rádios o tempo todo apesar de todos eles terem ótimas músicas e cantarem muito bem, porém, quem ouve música de verdade sabe reconhecer que eles são muito bons. “O que diferencia música boa de ruim, pra mim, é o fato de ela sair de moda e você continuar ouvindo-a no dia a dia”, diz Marcelo.


Os barulhos são o contrário da música de verdade. São músicas que ocupam o topo das paradas por um breve período de tempo. A indústria fonográfica praticamente “vomita” novos artistas (futuramente fracassados) no público. Artistas sem história e sem talento, que são apenas um novo rostinho bonito e que cantam grandes barulhos. Muitos cantores de talento têm muita dificuldade de fazer sucesso fazendo música de verdade, levando anos para chegarem lá.


O motivo do sucesso dos artistas ruins é que o povo gosta mesmo é de música ruim, que fale e induza a sacanagem. Esse é o motivo de grupos de axé e de pagode fazerem muito sucesso por um tempo e depois sumirem de vez da mídia e caírem no anonimato. Houve um tempo que “vai descendo na boquinha da garrafa”, “segura o tchan, amarra o tchan, segura o tchan tchan tchan tchan tchan” fez um estrondoso sucesso... e hoje? Onde eles estão? “Barulhos são todo e qualquer som que gruda na cabeça e é repetitivo. Vale a pena observar os fenômenos e as fases do "barulho" em nossa cabeça: primeiro o amamos e não conseguimos deixar de ouvir em nenhum momento, mas basta a música parar de tocar na rádio e sumir da mídia, que simplesmente a deixamos de lado”, conta Marcelo.


A banda Titãs já havia demonstrado o seu descontentamento em relação aos barulhos com a música “A melhor banda de todos os tempos da última semana”, ao criticarem a mídia e os “artistas” que fazem sucesso e logo caem novamente no anonimato:


“Os bons meninos de hoje
Eram os rebeldes da outra estação
O ilustre desconhecido
É o novo ídolo do próximo verão

A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos”


Porém, nem sempre o barulho é algo ruim ou desnecessário. É o que diz Diego Rabelo, 21 anos: “até os funks atuais (cuja letra, em sua maioria, pra não dizer totalidade, é um lixo!) podem cair bem em certas situações. Sim, estou me referindo a baladas. Nessas ocasiões, por melhor que seja, ninguém quer ouvir uma sinfonia de Chopin. A letra da música nem importa nesses casos... Aliás, nem precisa de letra, apenas de um ritmo bom pra dançar...”. E acrescenta: ”Tudo vai da situação. Não há como criar um padrão único para todas as situações. Não dá pra rotular”.


A música depende de situações e do estado de espírito das pessoas. De vez em quando um barulho pode alegrar alguém desanimado, ou alguma música mais emo pode acabar com a empolgação e a alegria de uma festa. Mas devemos valorizar as músicas boas e os grandes artistas que lutam por seu espaço e não valorizar novos ídolos sem talento somente por que suas músicas são mais empolgantes.


Agradecimentos a Marcelo D’Aquino e Diego Rabelo.

domingo, 9 de setembro de 2007

Amor eterno até amanhã


Uma das novas modinhas dos usuários brasileiros do Orkut é o de fazer juras de amor eterno que duram pouco tempo.


Uma nova moda no Orkut começou há alguns meses e, como se fosse uma epidemia, ela espalhou-se rapidamente infectando milhares dos usuários acéfalos do Orkut. A nova moda é declarar juras de amor eterno aos amigos ou à sua paixão.


Na vida, nada é eterno, tudo é passageiro. Nenhuma dor dura por toda a eternidade, nenhuma felicidade dura todos os dias, nem mesmo o amor. É claro que uma pessoa pode amar a outra por anos e anos, mas esse amor jamais irá durar com a mesma intensidade que amava no início, com a mesma paixão. E a paixão leva as pessoas a fazerem idiotices, pois assim como o ódio, a paixão também cega.


As pessoas que mais juram amor eterno são as crianças entre 12 e 25 anos que não são lá muito sensatas e falam as coisas sem pensar muito. As pessoas que recebem as juras de amor geralmente são aquelas que a pessoa conheceu em algumas semanas, ou seja, com o sentimento da paixão ainda muito forte.


Qual o motivo de agirem assim em minha opinião? Imaturidade em primeiro lugar. Isso é apenas uma moda que as pessoas infantis seguem. Francamente, amor eterno é coisa de contos de fadas! É algo totalmente infantil! Pessoas maduras não prometem o que não sabem se poderão cumprir. Elas evitam a hipocrisia. Além disso, são pessoas muito jovens ainda e até o fim de suas vidas, várias pessoas passarão por suas vidas. Pessoas mais bonitas, inteligentes, atraentes e pessoas que mexerão muito mais com seus sentimentos do que seus atuais “amores eternos”.


Quando o amor teoricamente eterno finalmente chega ao fim, os envolvidos esquecem dessa jura e passam a jurar o ódio eterno. Na hora da briga, elas argumentam: “você me disse que duraria para sempre!” Nesse momento, quem fez a jura percebe realmente que esse seu amor não era eterno, e que havia feito aquilo em um momento de cegueira passional, seguindo uma nova moda linda baseada em contos de fadas. A pessoa que recebeu a jura se achará injustiçada, pois o outro prometeu e não cumpriu. Dependendo de sua maturidade, o poder das palavras dessa jura poderá feri-la seriamente.


A partir desse momento, você mesmo perceberá que tem sido falso com os outros ao jurar amor eterno. Os seus amigos e seu amor, que lhe juraram amor eterno poderão trair você. Ou então, você mesmo poderá trair algum deles se jurar amor eterno. A eternidade dura até o fim da vida, mas parece que quem faz essa jura não entende o sentido dessa palavra.


Se você realmente ama alguém, acredito que não há a necessidade de fazer uma jura tão exagerada. Quem faz essas juras são as pessoas que não tem certeza de seu amor pelos outros e o fazem em uma tentativa de afirmarem isso a si mesmas. O amor pode ser demonstrado de outras formas mais convincentes. Então, não jure o que você não pode cumprir. Evite a hipocrisia. Evite magoar aos outros assim como você gostaria que não magoassem você.