domingo, 5 de fevereiro de 2017

Não tenho preconceito, mas...


Esta frase revela que quem a diz é preconceituoso ao demonstrar que, embora ela possa até aceitar alguma inclusão de quem é “diferente”, entende que existem limites que não podem ou não devem ser superados.

Quando alguém começa uma frase dizendo “não tenho preconceito, mas...”, é muito provável que esta pessoa vá falar algo preconceituoso em seguida e ela imagina que será interpretada exatamente desta forma, porém se utiliza desta frase para procurar desfazer qualquer suposto mal entendido.

Ainda vivemos em uma sociedade extremamente preconceituosa no Brasil e no mundo, mas não necessariamente porque este preconceito parta propriamente das pessoas, e sim porque foram criadas em um mundo que discrimina vários tipos de pessoas por serem quem são e como são, ou por não estar dentro de certos “padrões”.

No domingo passado (29/jan/2017) ocorreu o concurso de Miss Universo, que foi transmitido na TV aberta pela Band. Foram convidados a apresentar o concurso para o público brasileiro Renata Fan (Miss Brasil 1999 e apresentadora de TV), Cássio Reis e Rapha Mendonça. Durante o anúncio das 13 finalistas, os apresentadores não concordaram com a seleção de algumas Misses, o que é natural, pois é algo que depende dos conceitos e opiniões de cada um. No entanto, a frase “não tenho preconceito, mas” se encaixou perfeitamente nas declarações dos três diante do espanto da classificação da Miss Canadá, por ter sido considerada “fora dos padrões” por estar “acima do peso”. Cássio Reis foi mais além na sua demonstração de preconceito ao dizer que a Miss Canadá havia chegado onde chegou por “cotas”, além de ter ridicularizado a escolha do vestido branco pela Miss.

A Miss Canadá chegou entre as 6 finalistas, superando a brasileira Raíssa Santana, e a própria Renata Fan que, mesmo estando dentro dos “padrões”, sequer se classificou para as finalistas das etapas seguintes quando participou do Miss Universo 1999.

O problema da frase “não tenho preconceito, mas” é que, embora a pessoa não queira intencionalmente soar preconceituosa, ela procura argumentar de forma a justificar seu preconceito. No caso dos apresentadores da Band, eles procuraram argumentar que a Miss Canadá não deveria nem estar na lista das 13 finalistas porque o concurso “tem padrões”, como se as vencedoras precisassem ter determinadas medidas, além de saberem escolher os vestidos. No entendimento destes apresentadores, o concurso de Miss Universo é vencido pela Miss que, além de naturalmente bela e bem maquiada, precisa possuir determinadas medidas corporais e saber escolher um vestido que valorize sua beleza, ou seja, eles ultravalorizaram a aparência física e estética, ignorando o lado humano e as outras habilidades de uma Miss.

Um dos papeis mais tradicionais de uma Miss Universo é o de se engajar em causas humanitárias, especialmente àquelas voltadas ao cuidados de crianças e mulheres em situações de vulnerabilidade, portanto, a coroação da Miss Universo não se resume apenas a coroar a mulher mais bonita entre todas as concorrentes da noite (até mesmo porque todas são bonitas), mas alguém com habilidades e características que vão além de sua beleza, suas medidas, sua maquiagem ou seu vestido.

Além disso, demonstraram também desconhecimento das regras do concurso, que diz “A vencedora do Miss Universo deve ser confiante. Ela deve compreender os valores da nossa marca e as responsabilidades do título. [...] A concorrente deve demonstrar autenticidade, credibilidade e exibir graça sob pressão” (regras completas aqui). Em momento algum, as regras citam que existem medidas pré-determinadas (busto, quadril, etc). Além disso, se estes “padrões” constassem nas regras, provavelmente a Miss Canadá nem estaria competindo.

Depois de usar a frase “eu não tenho preconceito, mas”, a pessoa busca justificar o seu preconceito. Os apresentadores da Band procuraram fazer isso – sem sucesso porque não há nada sobre “padrões” nas regras do concurso – e a parte preconceituosa do público que acompanhou o evento pela TV e comentou nas redes sociais fez o mesmo. Esta frase revela que quem a diz é preconceituoso ao demonstrar que, embora ela possa até aceitar alguma inclusão de quem é “diferente”, entende que existem limites que não podem ou não devem ser superados. Para os apresentadores da Band, a Miss Canadá não seria merecedora do título de Miss Universo porque ela estava “acima do peso”, portanto isto a tornaria menos merecedora do título.

Normalmente, as justificativas dos preconceituosos não são baseadas na famosa “minha opinião”. Quase sempre a supostamente “minha” opinião é formada pela opinião dos outros, que pode ser um apresentador de TV, um pensador/filósofo, as regras morais laico-religiosas de uma sociedade ou em algum idiota autoconfiante. O preconceituoso busca citar esse gente toda sob o argumento da “minha opinião” diante do “por que não?” que a pessoa diferente faz à sociedade. Por que não uma Miss pode estar “fora dos padrões” ou, até mesmo, ser gorda? Por que não um casal de homossexuais pode andar de mãos dadas em público ou se beijar na novela? Por que não um negro ou uma mulher pode ocupar uma posição de destaque real na sociedade? Por que não?

Não ser preconceituoso é repensar os próprios preconceitos e o da sociedade a cada dia. Se não for para lutar por igualdade, é pelo menos não atrapalhar ou diminuir a luta de quem busca uma sociedade mais igualitária e com menos discriminação. Utilizar a frase “eu não tenho preconceito, mas” não te torna menos preconceituoso; você apenas sinaliza que ou não aceita que o diferente conquiste mais espaço na sociedade ou você tem alguma dificuldade de aceitação desta nova realidade, uma vez que este problema mexa com algum problema do seu inconsciente ou porque lhe provoca a repensar sobre o que é “certo” e o que é “errado”.

domingo, 4 de dezembro de 2016

A tragédia da Chapecoense, o futebol e seu poder de união



O triste episódio da tragédia com o voo da Chapecoense na madrugada de terça-feira (29/nov) fez renascer em muitas pessoas um sentimento de solidariedade e fraternidade que não víamos há muito tempo no Brasil e no mundo. Neste difícil ano de 2016, o esporte parece ser a única coisa que une as pessoas pelo que elas têm de melhor, diferentemente da política, que tem promovido exatamente o oposto.

O acidente tocou as pessoas por diversas razões. Dos 77 tripulantes, entre jogadores da Chapecoense, comissão técnica, imprensa e tripulação da aeronave, 71 morreram na queda e apenas seis sobreviveram. Muitos dos jogadores eram pessoas de origem humilde, com sonhos e uma história de vida que geram uma identificação muito forte pela maioria dos brasileiros. A equipe da Chapecoense era a alegria do futebol catarinense na Série A do Campeonato Brasileiro (as demais costumam lutar contra o rebaixamento), e ganhou uma projeção nacional muito rapidamente, conquistando a promoção para a Série C em 2009, para a Série B em 2012 e para a Série A já no ano seguinte. Além disso, pela primeira vez uma equipe catarinense chegou a uma final de um campeonato internacional como a Copa Sul-Americana. Por fim, a Chapecoense representa um estado que não possui muita tradição no futebol e vem de cidade pequena do oeste catarinense, que se destaca por abrigar grandes indústrias do setor agropecuário. Ou seja, a Chapecoense era uma equipe muito carismática e um acidente destas proporções causa uma comoção geral, seja pela identificação popular, seja pela identificação como ser humano, seja pela perda que representou para o esporte.

A Colômbia, o Brasil e o mundo prestaram uma série de homenagens e demonstrações de solidariedade e fraternidade que há muito tempo não víamos. A população colombiana prestou uma linda homenagem na noite em que seria realizado o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana de 2016, e as Forças Armadas da Colômbia prestaram honras militares quando os caixões foram conduzidos aos aviões da Aeronáutica brasileira. A população de Chapecó também prestou uma linda homenagem na Arena Condá na noite da última quarta-feira. Várias equipes de futebol mundialmente famosas prestaram homenagens e um minuto de silêncio: a torcida do Liverpool cantou “You’ll never walk alone”, Wembley e vários monumentos nacionais e internacionais foram iluminados de verde. As equipes brasileiras propuseram emprestar jogadores, entrar com a camisa da Chapecoense na última rodada do Campeonato Brasileiro (vai faltar camisa) e que a equipe não seja rebaixada nos próximos três anos. O Club Atlético Nacional, adversário da Chapecoense na final, abriu mão do título da Sul-Americana e o Atlético Mineiro, adversário da Chape na última rodada, não deseja jogar. Um fã de futebol, que nem era torcedor da Chapecoense, sugeriu que as pessoas se associassem ao clube, e este número dobrou em menos de 24 horas.

Houve uma ampla cobertura da imprensa sobre o acidente, com homenagens aos jogadores, à Chapecoense e aos jornalistas. Infelizmente, por outro lado, houve “jornalistas-militantes” que quiseram aparecer às custas da tragédia dos outros, como a página Catraca Livre com as suas listas de mau gosto relacionadas ao ocorrido. Aqui vemos que o pessoal que defende “mais amor, por favor” e que possui um viés político é incapaz não somente de se sensibilizar com a dor das famílias que perderam um filho, um neto, um irmão, um marido ou um pai, como tentam tirar proveito disso.

Os últimos anos têm mostrado o poder da política em desunir as pessoas, em semear o ódio e a intolerância: Trump se elegeu unindo os americanos pelo que eles podiam sentir de pior pelas outras pessoas. Eventos como a tragédia do voo Chapecoense mostram que o futebol não é coisa de “alienado” como muitas pessoas engajadas na política criticam, mas além de uma alegria, tem a ver com amizade, com respeito e com fraternidade, ou seja, sentimentos positivos que andam cada vez mais adormecidos. Foram esses sentimentos que ressurgiram nos últimos dias, sentimentos que uniram as pessoas não apenas em Chapecó, ou em Santa Catarina, ou no Brasil, mas no mundo do futebol, que é um esporte que possui esse poder de unir o mundo por mexer com os sentimentos das pessoas de forma positiva. Quem poderia esperar que uma equipe pequena do interior de Santa Catarina pudesse ser tratada com tanto carinho pelos maiores clubes do Brasil e do mundo? E quem poderia esperar que uma tragédia pudesse unir as pessoas pelo que elas podem sentir de melhor enquanto a política cada vez mais promove o contrário?


domingo, 27 de novembro de 2016

Você não é obrigado a se (o)posicionar


Sobre quando o engajamento serve para dar vazão a uma natureza violenta e maximizar a palavra final. E a falta de respeito contra quem não quer se (o)posicionar.

Desde que Michel Temer assumiu a presidência, ele tem encontrado uma oposição tão forte quanto a ex-presidente Dilma, que não se dá mais apenas na forma de hashtags e stickers de vômito no Facebook, mas é observável também de forma concreta através das ocupações de escolas e universidades e greves contra a PEC 55.

O Brasil, que nunca observou o lema de “ordem e progresso” de sua bandeira, está cada vez mais caótico na esfera política. Brasília vive em clima de guerra política com os rotineiros escândalos, denúncias e algumas cassações e prisões (Eduardo Cunha, Garotinho e Sérgio Cabral). As greves e ocupações contra Michel Temer e suas medidas são uma forma de colocar a população contra o atual governo, no entanto, elas vêm sendo conduzidas de uma forma que coloca a população contra estes movimentos anti-Temer.

Em Florianópolis, os protestos pelo impeachment se deram com o fechamento das vias de acesso às duas pontes que ligam a ilha ao continente, deixando o trânsito ainda mais caótico do que já é. Há, ainda, as ocupações que se deram nas instituições de ensino superior IFSC, UFSC e UDESC contra a PEC 55, sendo que a desocupação foi determinada pela justiça.

Ainda em relação à ocupação, percebe-se claramente o embate entre os grupos que fazem oposição a Temer sob a forma de greves, manifestações e ocupações e entidades a favor de Temer, como a imprensa e os órgãos do governo. Os grupos anti-Temer buscam colocar a população contra o presidente Temer quando prejudicam o direito de ir e vir de toda a população (seja ela a favor, contra e indiferente). A base de apoio de Temer busca colocar a população contra os grupos de oposição, ressaltando as ações violentas em protestos e adiando o ENEM nas escolas ocupadas (mesmo que as salas de aula estejam livres de ocupação). A população como um todo fica no meio de um fogo cruzado, onde os dois grupos lutam para recrutar a maior quantidade de indivíduos.

O objetivo desta postagem é propor uma reflexão sobre os militantes dos grupos favoráveis e contrários a Temer, como estes grupos agem e como lidam com a população que não é nem contra nem à favor a Michel Temer.

Por que uma pessoa se engaja em uma causa? Inicialmente, poderíamos pensar que é porque ela acredita nesta causa, mas parece que há mais um motivo: para dar vazão à sua agressividade latente e “maximizar a palavra final”, principalmente se a causa for de cunho político-social. Talvez isto explique porque os grupos rivais não conseguem se respeitar: eles exigem respeito, mas sem respeitar quem pensa diferente deles. Dentro destes grupos, existem indivíduos que militam com a intenção de extravasar a sua natureza violenta na forma, não necessariamente porque acreditam nesta causa. Eles demonstram isso desde um comentário sarcástico às agressões verbais, físicas e depredações, quando lidam diretamente com opiniões e visões contrárias, ou com o grupo rival.

Algumas ocupações em escolas e universidades buscam catequizar/recrutar tanto a população que é contra quanto aquela que não tem um posicionamento. Isto pode se dar de maneira soft através da promoção de debates e aulas públicas explicando o que do que se trata a PEC 55 e quais são os supostos perigos que eles acreditam que ela representa para a saúde e educação. Por outro lado, há demonstrações mais invasivas e desrespeitosas, como o bloqueio das vias públicas, das greves e das ocupações que perturbam a rotina dos estudantes ou o seu direito de estudar. Tentar catequizar/recrutar a população contrária ou ainda, pertubá-la, é uma demonstração de falta de respeito com o espaço dos outros.

As pessoas não são obrigadas a se (o)posicionar sobre toda e qualquer causa e, da mesma forma, deveriam ser respeitadas por isso, o que acaba não acontecendo. As greves, bloqueios e ocupações acabam sendo um tiro no pé dos movimentos que promovem estes atos. A lógica “vamos impor um desconforto a toda a população, que ficará indignada com isso e irá se juntar a eles na causa contra o grupo rival”. Não é isto que geralmente acontece, mas o contrário, quando o indivíduo acaba se posicionando sim, mas contra o grupo que está promovendo a suposta “conscientização” através do transtorno de uma população que já está cansada e estressada depois de um dia de trabalho.

Falta a estes grupos a conscientização e o respeito aos grupos que não querem se (o)posicionar. Ninguém é obrigado a levantar uma bandeira e lutar a favor dela. As pessoas perdem o interesse pela política ou se colocam contrárias aos grupos que tratam a sua ignorância em um assunto como uma agressão sutil (sarcasmo) ou mais pesada (violência física ou verbal), ou quando também são agressivos quando a pessoa não se posiciona (“se você não está com a gente, então está contra nós”, “você é alienado”).

Está faltando RESPEITO! Respeito é uma via de mão dupla. É preciso respeitar e lidar com as opiniões divergentes, ter inteligência emocional para não cair em provocações, e respeitar o espaço de quem não concorda e nem discorda de uma determinada causa para ser respeitado. Participar de uma militância sobre qualquer causa não deveria servir para dar vazão a uma agressividade latente, da mesma forma que o objetivo de uma militância não deveria ser “maximizar a palavra final” sobre alguma coisa.

Certamente, é muito importante que existam pessoas engajadas em uma causa, seja ela política, econômica, social, ambiental, de direito dos animais, etc., mas as pessoas sem posicionamento preferem se manter longe destes grupos quando exigem respeito sem respeitar opiniões divergentes, sem respeitar quem não tem um posicionamento, por usar estes grupos para dar vazão à sua agressividade e por lidar com pessoas sem posicionamento como indivíduos a serem recrutadas e usadas para a sua causa.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As manipulações do PT e os dilemas morais de Michel Temer


Vaias, vomitaço nas redes sociais, baixa aprovação popular. Como ficam os sentimentos e os dilemas morais de Michel Temer diante de tanta rejeição?

A confirmação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff no último 31 de agosto incendiou novamente os ânimos da população brasileira, que havia sido apaziguado durante os Jogos Olímpicos. Desde então, vem acontecendo nas redes sociais várias discussões a respeito do teor violento que as manifestações contra o impeachment tomaram, o que não é muito diferente das que se seguem desde 2013 quando elas eram, até então, “apartidárias”. Dentro de um grupo que realizava as manifestações pacificamente, um grupo mais radical utilizava este ato para cometer crimes contra o patrimônio público através de pichações e depredações.

Diante destes atos de vandalismo, o papel da imprensa é extremamente questionado por querer atribuir ao coletivo a responsabilidade pelos atos de alguns. Esta atitude tendenciosa é interpretada, quase automaticamente por aqueles com algum senso crítico, como uma forma de apoio a um determinado pensamento político em detrimento de outro. No entanto, este tipo de argumentação não justifica a destruição do patrimônio público, da mesma forma que não justifica a resposta violenta da polícia diante dos manifestantes. Então, instala-se um debate inútil sobre o que é mais grave – a jovem que perdeu a visão de um olho ao ser atingida por uma bala de borracha ou os atos de vandalismo – quando, na realidade, a violência policial não justifica o vandalismo e vice-versa.

As últimas postagens sobre a questão impeachment procuraram mostrar que não se deve pensar em bem e mal absolutos em política, sobretudo no que tange ao discurso manipulado do PT que o que ocorreu foi um golpe disfarçado de impeachment. Embora seja inegável todo um clima golpista que se formou para a derrubada de Dilma, especialmente depois da votação circense na Câmara dos Deputados que levou a votação ao Senado, o PT foi mais uma vez cínico e oportunista em diversas ocasiões desde então.

Primeiramente, por criar uma imagem demonizada de Michel Temer como se ele fosse um mero golpista que surgiu do nada. É muito conveniente ignorar o fato de que ele foi convidado pelo próprio PT para o cargo de vice-presidente nas eleições de 2010 e 2014. Além disso, Michel Temer já não era uma figura política que inspirava confiança, portanto, cedo ou tarde seriam “traídos” assim que o jogo virasse.

Em segundo lugar, pela manipulação do argumento dos 54 milhões de votos. Não vimos 54 milhões de pessoas indo para as ruas protestar contra o impeachment. É importante lembrar que no 1º turno Dilma conquistou os votos de 43,2 milhões. No 2º turno, Aécio Neves foi o candidato que acumulou mais votos dos candidatos derrotados (16 milhões contra 11 de Dilma). Os 6 milhões de votos brancos e nulos teriam garantido a derrota de Dilma se fossem a favor de Aécio. Além disso, os números sozinhos não falam por si só, pois muitos eleitores não votaram em Dilma porque acreditavam que ela era a melhor candidata, mas porque foi uma disputa entre o ruim e o pior e a rejeição ao que Aécio e o PSDB representam continuaram sendo muito fortes.

Em terceiro lugar, e ainda utilizando o argumento dos 54 milhões de votos, o PT é muito cínico ao supor que todos os seus eleitores do 2º turno fossem manter o seu voto após se sentirem traídos pelas mentiras do programa eleitoral de 2014. A população sofreu e não ficou nem um pouco feliz com a queda na qualidade de vida e no poder de compra com a alta nos preços da energia elétrica, da gasolina e dos alimentos. Por mais ridícula que tenha sido a votação na Câmara dos Deputados em termos de argumentos favoráveis ao impeachment, boa parte da população queria estar fazendo exatamente o mesmo que eles: um plebiscito sobre a satisfação do eleitor durante a 2ª gestão do governo Dilma.

E em quarto lugar, a Constituição nunca teve tanto valor para o PT como durante o rito do impeachment. É como se antes disso ela jamais tivesse sido violada pelo próprio PT para a construção da Usina de Belo Monte, na aprovação do novo Código Florestal, no enquadramento das manifestações populares como terrorismo e da repressão policial, diante do assassinato de vários jovens negros e pobres, e por aí vai. É como se nos 14 anos de PT nunca houvesse existido um “golpe na democracia”.

Mas e onde entram os dilemas morais de Michel Temer?

Dentro de todas estas tentativas de manipulação popular que não atingiram o seu objetivo (o golpe foi consumado), houve uma intensa campanha para desestimular o golpe ao tentar jogar a população contra Michel Temer e legislativo golpista. As vaias na abertura das Olimpíadas, que se tornaram uma tradição desde as vaias a Lula na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio 2007, não geraram um constrangimento de Michel Temer a ponto de ele desistir do impeachment, por mais constrangedor que tivesse sido para ele em um momento que os olhos do mundo estavam voltados ao Brasil.

Os stickers (figurinhas) do Facebook para promover um “vomitaço” muito menos, até mesmo porque nunca houve reação pública dos políticos no próprio Facebook ou na imprensa nacional e, muito menos, internacional. Da mesma forma, as hashtags também não chamaram a atenção da imprensa nacional, nem internacional e nem das pessoas que não são tão “conectadas”. Os políticos não ficam online o dia todo no Facebook, Twitter e WhatsApp.

Apesar da tendenciosidade da imprensa e dos institutos de pesquisa ao apresentarem os números de manifestantes nos protestos e os números da aprovação ao governo Temer, o atual presidente pouco se importa com isto, principalmente porque estará inelegível em 2018 e, portanto, não está preocupado em ser reeleito.

Estas tentativas de constranger Michel Temer não o abalam porque, assim como os outros políticos, ele não está preocupado com vaias, com vomitaços, com hashtags ou protestos maciços na vida real, mas em simplesmente se manter no poder. O que faz Michel Temer temer alguma coisa não são os eleitores brasileiros, mas os outros políticos que, da mesma forma que lhe colocaram no poder, podem retirá-lo caso ele perca apoio da mesma forma que Dilma perdeu.

A população comum ainda toma a si própria como referência, como se todos os políticos recuassem diante de constrangimentos e vivessem dilemas morais por não terem a ampla aprovação popular. Além disso, o povo é hipócrita por ansiar honestidade de seus políticos sendo que eles mesmos não são honestos. A interpretação de desonestidade é muito seletiva, como se apenas o desvio de milhões de reais dos cofres públicos fosse inaceitável, mas tudo bem estacionar em lugar proibido, furar fila, falsificar documentos para conquistar benefícios legais...

Não, Michel Temer não se abala, da mesma forma que Marcela Temer e o filho deles não irão se abalar se continuarem vivendo sob um guarda chuva de dinheiro e poder. Eduardo Cunha mal conseguiu chorar. Os dois utilizaram e procuraram realizar apelos emocionais para tentar tocar o coração do povo que se deixa levar pelas sentimentalidades, sendo que é o próprio povo que sofre quando se vê submetido a várias violações de direitos por falta de segurança, educação, saúde, emprego... É essa população que mais sofre que virou as costas para Dilma e que não está nem aí se foi golpe ou se não foi, se poderíamos nos tornar uma ditadura militar ou não. O povo perde a fé na política quando se sente usado e enganado.

Portanto, toda esta discussão a respeito do golpe apenas escancara o cinismo dos partidos políticos (sobretudo do PT que se voltou ao povo justamente porque perdeu o poder) e um misto de cinismo e ingenuidade entre aqueles que defendem que Dilma foi vítima de um golpe, ou que houve um “golpe na democracia”. Criticar a hipocrisia do PT diante do tétrico teatro circense do impeachment não significa ser a favor de Temer e dos oportunistas que tomaram o poder junto com ele, mas sim a necessidade da sociedade brasileira de enxergar que todo este caos que se instalou no Brasil é resultado de um jogo de poder onde a população é manipulada pelo médio através de ameaças de “vai piorar” sendo que ela já vive uma situação péssima. Este é um período que a sociedade precisa se perguntar o que representa para os políticos e repensar as próprias atitudes como cidadão, pois não adianta projetar nos políticos uma imagem de alguém que deva servir de exemplo sendo que procuramos minimizar ao máximo a corrupção nossa de cada dia.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Por que investir em esportes?


Não se deve investir em esportes com a única finalidade de formar atletas. O esporte também traz diversos benefícios para aqueles que não são/serão atletas.

Durante as Olimpíadas e, diante da tradicional insatisfação de muitos diante das poucas medalhas conquistadas pelo Brasil, em especial na primeira semana dos Jogos, população e a imprensa falaram sobre investir mais em esporte. O problema, no entanto, é que a finalidade que do investimento visava melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas, desta forma, demonstraram possuir uma visão ostentarória e limitada do papel do esporte.

Embora o Brasil tenha melhorado a sua posição no quadro de medalhas pelo recorde de medalhas de ouro e pelo total de medalhas, mostra que a política do governo federal é um pouco mais séria do que os governos anteriores, mas ainda é ineficiente. O principal projeto para o esporte nos últimos anos foi o Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR), firmado em 2008 pelos ministérios do Esporte e da Defesa. Resumidamente, é repassado ao Ministério da Defesa uma verba maior para o investimento em equipamentos e de infraestrutura para que os atletas possam treinar. Em contrapartida, os atletas se tornam militares e precisam realizar também treinamentos militares. Isto explica a grande quantidade de atletas medalhistas batendo continência no pódio. Do total de 19 medalhas conquistadas pelo Brasil, 14 delas foram de atletas militares. O Governo também implementou outras políticas como o Bolsa Atleta e o Bolsa Pódio.

Apesar da melhora do Brasil no quadro de medalhas, o PAAR ao deixa de ser uma política controversa e que pensa a curto prazo. O técnico do ginasta medalhista, Arthur Zanetti, (ouro em Londres e prata no Rio, nas argolas) criticou esta política ao afirmar que as Forças Armadas “só pegam atleta pronto” e completou “no dia que os militares formarem crianças, apoiar a iniciação, apoiar treinador, aí eu tiro o chapéu”. Esta crítica mostra que o PAAR é mais uma das políticas do ex-presidente Lula de querer melhorar as coisas de cima para baixo porque apresentam resultados imediatos, embora demonstre ser ineficiente a longo prazo. Nenhum dos programas fez o que o técnico de Zanetti salientou na crítica, ou seja, na formação de crianças e treinadores. Este seria um projeto contínuo de descoberta de renovação e descoberta de novos talentos, além de dar suporte para que se evite a desistência do esporte e o comprometimento do treinamento pela falta de infraestrutura para competir e treinar. O PAAR é minimamente oportunista ao selecionar os sobreviventes do “darwinismo esportivo” e utilizá-los como ferramenta de propaganda da suposta eficiência das Forças Armadas.

Até então, estes são exemplos do esporte sendo utilizado apenas com a finalidade ostentatória de melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas. Uma política eficiente não é “pegar atletas prontos”, como criticou o técnico de Zanetti, mas investir desde cedo nas crianças e na infraestrutura para descobrir talentos potenciais, evitar que eles desistam com o passar do tempo e poder oferecer treinamento contínuo e de alto nível.

Não se deve investir em esporte visando apenas a formação de atletas; esta deve ser uma consequência, já que nem todo mundo sonha em ser atleta ou tenha o talento necessário para tal. O investimento no esporte não deve pensar apenas na formação de atletas, mas deve também considerar que é uma forma de promover diversão e lazer para a população comum, afinal de contas, é ela que paga, com seus impostos, o investimento público em esporte.

Mas mais importante do que formar atletas e promover diversão e lazer, o esporte também é uma ferramenta importante em prol de uma vida mais saudável e na socialização dos indivíduos. O esporte é uma combinação de exercícios físicos com a socialização. Isto é fundamental desde a infância, pois é nesta fase que as crianças vão desenvolver as habilidades e comportamentos que vão carregar na vida adulta. Uma criança acima do peso pode sofrer com o bullying e problemas de autoestima que pode transformá-la em um adulto inseguro. Além da questão psicológica, já é do conhecimento comum que o esporte ajuda na prevenção de várias doenças que podem decorrer devido ao excesso de peso ou ao sedentarismo.

O esporte, sobretudo os esportes coletivos, são importantes para desenvolver e fortalecer habilidades e valores como o respeito às diferenças, a amizade, o trabalho em equipe, a empatia, a perseverança e a aprender a lidar com a derrota. Todas estas habilidades são importantes para o estabelecimento de boas relações interpessoais dentro das famílias, nos relacionamentos amorosos, no ambiente educacional, no trabalho, com amigos e com desconhecidos. O desenvolvimento destas habilidades é ainda mais importante quando ela abarca crianças e jovens das classes sociais mais baixas, que se tornam menos inclinadas a ver no crime um estilo de vida e a única opção de sobrevivência ou ascensão social. Desta forma, o esporte também pode ser uma ferramenta para formar cidadãos e estimular um convívio respeitoso em sociedade.


Investir em esporte é, ao mesmo tempo, investir em educação além da sala de aula. Investir em esporte é dar a um atleta as mesmas oportunidades que o Estado dá para formar outros profissionais (médicos, advogados, jornalistas, engenheiros, professores, etc) e, da mesma forma, também é preciso investir de baixo para cima para gerar resultados no longo prazo e evitar o desperdício de talentos. O esporte não deve ser visto como ferramenta única e ostentatória de melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas nas Olimpíadas; deve ser visto também como um meio de diversão e lazer, de promoção de uma vida mais saudável e de socialização e disseminação de valores para o bom convívio em sociedade.