segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As manipulações do PT e os dilemas morais de Michel Temer


Vaias, vomitaço nas redes sociais, baixa aprovação popular. Como ficam os sentimentos e os dilemas morais de Michel Temer diante de tanta rejeição?

A confirmação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff no último 31 de agosto incendiou novamente os ânimos da população brasileira, que havia sido apaziguado durante os Jogos Olímpicos. Desde então, vem acontecendo nas redes sociais várias discussões a respeito do teor violento que as manifestações contra o impeachment tomaram, o que não é muito diferente das que se seguem desde 2013 quando elas eram, até então, “apartidárias”. Dentro de um grupo que realizava as manifestações pacificamente, um grupo mais radical utilizava este ato para cometer crimes contra o patrimônio público através de pichações e depredações.

Diante destes atos de vandalismo, o papel da imprensa é extremamente questionado por querer atribuir ao coletivo a responsabilidade pelos atos de alguns. Esta atitude tendenciosa é interpretada, quase automaticamente por aqueles com algum senso crítico, como uma forma de apoio a um determinado pensamento político em detrimento de outro. No entanto, este tipo de argumentação não justifica a destruição do patrimônio público, da mesma forma que não justifica a resposta violenta da polícia diante dos manifestantes. Então, instala-se um debate inútil sobre o que é mais grave – a jovem que perdeu a visão de um olho ao ser atingida por uma bala de borracha ou os atos de vandalismo – quando, na realidade, a violência policial não justifica o vandalismo e vice-versa.

As últimas postagens sobre a questão impeachment procuraram mostrar que não se deve pensar em bem e mal absolutos em política, sobretudo no que tange ao discurso manipulado do PT que o que ocorreu foi um golpe disfarçado de impeachment. Embora seja inegável todo um clima golpista que se formou para a derrubada de Dilma, especialmente depois da votação circense na Câmara dos Deputados que levou a votação ao Senado, o PT foi mais uma vez cínico e oportunista em diversas ocasiões desde então.

Primeiramente, por criar uma imagem demonizada de Michel Temer como se ele fosse um mero golpista que surgiu do nada. É muito conveniente ignorar o fato de que ele foi convidado pelo próprio PT para o cargo de vice-presidente nas eleições de 2010 e 2014. Além disso, Michel Temer já não era uma figura política que inspirava confiança, portanto, cedo ou tarde seriam “traídos” assim que o jogo virasse.

Em segundo lugar, pela manipulação do argumento dos 54 milhões de votos. Não vimos 54 milhões de pessoas indo para as ruas protestar contra o impeachment. É importante lembrar que no 1º turno Dilma conquistou os votos de 43,2 milhões. No 2º turno, Aécio Neves foi o candidato que acumulou mais votos dos candidatos derrotados (16 milhões contra 11 de Dilma). Os 6 milhões de votos brancos e nulos teriam garantido a derrota de Dilma se fossem a favor de Aécio. Além disso, os números sozinhos não falam por si só, pois muitos eleitores não votaram em Dilma porque acreditavam que ela era a melhor candidata, mas porque foi uma disputa entre o ruim e o pior e a rejeição ao que Aécio e o PSDB representam continuaram sendo muito fortes.

Em terceiro lugar, e ainda utilizando o argumento dos 54 milhões de votos, o PT é muito cínico ao supor que todos os seus eleitores do 2º turno fossem manter o seu voto após se sentirem traídos pelas mentiras do programa eleitoral de 2014. A população sofreu e não ficou nem um pouco feliz com a queda na qualidade de vida e no poder de compra com a alta nos preços da energia elétrica, da gasolina e dos alimentos. Por mais ridícula que tenha sido a votação na Câmara dos Deputados em termos de argumentos favoráveis ao impeachment, boa parte da população queria estar fazendo exatamente o mesmo que eles: um plebiscito sobre a satisfação do eleitor durante a 2ª gestão do governo Dilma.

E em quarto lugar, a Constituição nunca teve tanto valor para o PT como durante o rito do impeachment. É como se antes disso ela jamais tivesse sido violada pelo próprio PT para a construção da Usina de Belo Monte, na aprovação do novo Código Florestal, no enquadramento das manifestações populares como terrorismo e da repressão policial, diante do assassinato de vários jovens negros e pobres, e por aí vai. É como se nos 14 anos de PT nunca houvesse existido um “golpe na democracia”.

Mas e onde entram os dilemas morais de Michel Temer?

Dentro de todas estas tentativas de manipulação popular que não atingiram o seu objetivo (o golpe foi consumado), houve uma intensa campanha para desestimular o golpe ao tentar jogar a população contra Michel Temer e legislativo golpista. As vaias na abertura das Olimpíadas, que se tornaram uma tradição desde as vaias a Lula na abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio 2007, não geraram um constrangimento de Michel Temer a ponto de ele desistir do impeachment, por mais constrangedor que tivesse sido para ele em um momento que os olhos do mundo estavam voltados ao Brasil.

Os stickers (figurinhas) do Facebook para promover um “vomitaço” muito menos, até mesmo porque nunca houve reação pública dos políticos no próprio Facebook ou na imprensa nacional e, muito menos, internacional. Da mesma forma, as hashtags também não chamaram a atenção da imprensa nacional, nem internacional e nem das pessoas que não são tão “conectadas”. Os políticos não ficam online o dia todo no Facebook, Twitter e WhatsApp.

Apesar da tendenciosidade da imprensa e dos institutos de pesquisa ao apresentarem os números de manifestantes nos protestos e os números da aprovação ao governo Temer, o atual presidente pouco se importa com isto, principalmente porque estará inelegível em 2018 e, portanto, não está preocupado em ser reeleito.

Estas tentativas de constranger Michel Temer não o abalam porque, assim como os outros políticos, ele não está preocupado com vaias, com vomitaços, com hashtags ou protestos maciços na vida real, mas em simplesmente se manter no poder. O que faz Michel Temer temer alguma coisa não são os eleitores brasileiros, mas os outros políticos que, da mesma forma que lhe colocaram no poder, podem retirá-lo caso ele perca apoio da mesma forma que Dilma perdeu.

A população comum ainda toma a si própria como referência, como se todos os políticos recuassem diante de constrangimentos e vivessem dilemas morais por não terem a ampla aprovação popular. Além disso, o povo é hipócrita por ansiar honestidade de seus políticos sendo que eles mesmos não são honestos. A interpretação de desonestidade é muito seletiva, como se apenas o desvio de milhões de reais dos cofres públicos fosse inaceitável, mas tudo bem estacionar em lugar proibido, furar fila, falsificar documentos para conquistar benefícios legais...

Não, Michel Temer não se abala, da mesma forma que Marcela Temer e o filho deles não irão se abalar se continuarem vivendo sob um guarda chuva de dinheiro e poder. Eduardo Cunha mal conseguiu chorar. Os dois utilizaram e procuraram realizar apelos emocionais para tentar tocar o coração do povo que se deixa levar pelas sentimentalidades, sendo que é o próprio povo que sofre quando se vê submetido a várias violações de direitos por falta de segurança, educação, saúde, emprego... É essa população que mais sofre que virou as costas para Dilma e que não está nem aí se foi golpe ou se não foi, se poderíamos nos tornar uma ditadura militar ou não. O povo perde a fé na política quando se sente usado e enganado.

Portanto, toda esta discussão a respeito do golpe apenas escancara o cinismo dos partidos políticos (sobretudo do PT que se voltou ao povo justamente porque perdeu o poder) e um misto de cinismo e ingenuidade entre aqueles que defendem que Dilma foi vítima de um golpe, ou que houve um “golpe na democracia”. Criticar a hipocrisia do PT diante do tétrico teatro circense do impeachment não significa ser a favor de Temer e dos oportunistas que tomaram o poder junto com ele, mas sim a necessidade da sociedade brasileira de enxergar que todo este caos que se instalou no Brasil é resultado de um jogo de poder onde a população é manipulada pelo médio através de ameaças de “vai piorar” sendo que ela já vive uma situação péssima. Este é um período que a sociedade precisa se perguntar o que representa para os políticos e repensar as próprias atitudes como cidadão, pois não adianta projetar nos políticos uma imagem de alguém que deva servir de exemplo sendo que procuramos minimizar ao máximo a corrupção nossa de cada dia.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Por que investir em esportes?


Não se deve investir em esportes com a única finalidade de formar atletas. O esporte também traz diversos benefícios para aqueles que não são/serão atletas.

Durante as Olimpíadas e, diante da tradicional insatisfação de muitos diante das poucas medalhas conquistadas pelo Brasil, em especial na primeira semana dos Jogos, população e a imprensa falaram sobre investir mais em esporte. O problema, no entanto, é que a finalidade que do investimento visava melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas, desta forma, demonstraram possuir uma visão ostentarória e limitada do papel do esporte.

Embora o Brasil tenha melhorado a sua posição no quadro de medalhas pelo recorde de medalhas de ouro e pelo total de medalhas, mostra que a política do governo federal é um pouco mais séria do que os governos anteriores, mas ainda é ineficiente. O principal projeto para o esporte nos últimos anos foi o Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR), firmado em 2008 pelos ministérios do Esporte e da Defesa. Resumidamente, é repassado ao Ministério da Defesa uma verba maior para o investimento em equipamentos e de infraestrutura para que os atletas possam treinar. Em contrapartida, os atletas se tornam militares e precisam realizar também treinamentos militares. Isto explica a grande quantidade de atletas medalhistas batendo continência no pódio. Do total de 19 medalhas conquistadas pelo Brasil, 14 delas foram de atletas militares. O Governo também implementou outras políticas como o Bolsa Atleta e o Bolsa Pódio.

Apesar da melhora do Brasil no quadro de medalhas, o PAAR ao deixa de ser uma política controversa e que pensa a curto prazo. O técnico do ginasta medalhista, Arthur Zanetti, (ouro em Londres e prata no Rio, nas argolas) criticou esta política ao afirmar que as Forças Armadas “só pegam atleta pronto” e completou “no dia que os militares formarem crianças, apoiar a iniciação, apoiar treinador, aí eu tiro o chapéu”. Esta crítica mostra que o PAAR é mais uma das políticas do ex-presidente Lula de querer melhorar as coisas de cima para baixo porque apresentam resultados imediatos, embora demonstre ser ineficiente a longo prazo. Nenhum dos programas fez o que o técnico de Zanetti salientou na crítica, ou seja, na formação de crianças e treinadores. Este seria um projeto contínuo de descoberta de renovação e descoberta de novos talentos, além de dar suporte para que se evite a desistência do esporte e o comprometimento do treinamento pela falta de infraestrutura para competir e treinar. O PAAR é minimamente oportunista ao selecionar os sobreviventes do “darwinismo esportivo” e utilizá-los como ferramenta de propaganda da suposta eficiência das Forças Armadas.

Até então, estes são exemplos do esporte sendo utilizado apenas com a finalidade ostentatória de melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas. Uma política eficiente não é “pegar atletas prontos”, como criticou o técnico de Zanetti, mas investir desde cedo nas crianças e na infraestrutura para descobrir talentos potenciais, evitar que eles desistam com o passar do tempo e poder oferecer treinamento contínuo e de alto nível.

Não se deve investir em esporte visando apenas a formação de atletas; esta deve ser uma consequência, já que nem todo mundo sonha em ser atleta ou tenha o talento necessário para tal. O investimento no esporte não deve pensar apenas na formação de atletas, mas deve também considerar que é uma forma de promover diversão e lazer para a população comum, afinal de contas, é ela que paga, com seus impostos, o investimento público em esporte.

Mas mais importante do que formar atletas e promover diversão e lazer, o esporte também é uma ferramenta importante em prol de uma vida mais saudável e na socialização dos indivíduos. O esporte é uma combinação de exercícios físicos com a socialização. Isto é fundamental desde a infância, pois é nesta fase que as crianças vão desenvolver as habilidades e comportamentos que vão carregar na vida adulta. Uma criança acima do peso pode sofrer com o bullying e problemas de autoestima que pode transformá-la em um adulto inseguro. Além da questão psicológica, já é do conhecimento comum que o esporte ajuda na prevenção de várias doenças que podem decorrer devido ao excesso de peso ou ao sedentarismo.

O esporte, sobretudo os esportes coletivos, são importantes para desenvolver e fortalecer habilidades e valores como o respeito às diferenças, a amizade, o trabalho em equipe, a empatia, a perseverança e a aprender a lidar com a derrota. Todas estas habilidades são importantes para o estabelecimento de boas relações interpessoais dentro das famílias, nos relacionamentos amorosos, no ambiente educacional, no trabalho, com amigos e com desconhecidos. O desenvolvimento destas habilidades é ainda mais importante quando ela abarca crianças e jovens das classes sociais mais baixas, que se tornam menos inclinadas a ver no crime um estilo de vida e a única opção de sobrevivência ou ascensão social. Desta forma, o esporte também pode ser uma ferramenta para formar cidadãos e estimular um convívio respeitoso em sociedade.


Investir em esporte é, ao mesmo tempo, investir em educação além da sala de aula. Investir em esporte é dar a um atleta as mesmas oportunidades que o Estado dá para formar outros profissionais (médicos, advogados, jornalistas, engenheiros, professores, etc) e, da mesma forma, também é preciso investir de baixo para cima para gerar resultados no longo prazo e evitar o desperdício de talentos. O esporte não deve ser visto como ferramenta única e ostentatória de melhorar a posição do Brasil no quadro de medalhas nas Olimpíadas; deve ser visto também como um meio de diversão e lazer, de promoção de uma vida mais saudável e de socialização e disseminação de valores para o bom convívio em sociedade.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O Brasil visto de dentro e de fora


Por que o Brasil se preocupa tanto com a imagem que passa ao exterior? O Brasil deve se adequar à cultura dos estrangeiros ou deve aceitar a própria?

Por causa dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, inevitavelmente passamos a lidar com os estrangeiros talvez da maneira mais intensa e inédita na história do país, uma vez que todos os países do mundo estão representados neste evento, ao contrário da Copa do Mundo que se restringe a 32. A questão da imagem que o Brasil tem “lá fora” representa uma preocupação antiga desde os tempos do Brasil Império, quando se queria formar uma imagem de “país civilizado” aos olhos da Europa e dentro dos moldes europeus. Por razões como estas, o Brasil sempre olhou os seus vizinhos da América Latina com muito desprezo e fazia questão de se manter ligado à Europa nas áreas comercial e cultural até a I Guerra, quando o referencial de progresso e civilidade passou a ser os Estados Unidos.

Nos últimos anos, a preocupação com a imagem aumentou a partir do momento que o Brasil conquistou o direito de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Por mais de 200 anos que o Brasil tenta se projetar no cenário internacional nas áreas cultural e econômica, mas não consegue, pelo menos não da forma como gostaria. A uma elite nacional e uma “elite periférica”, não os agrada muito o estereótipo de que o Brasil seja o país do carnaval, porque indiscutivelmente o carnaval é uma festa popular que agrada desde os ricos aos mais pobres. O que os desagrada é que muitos elementos da nossa cultura possuem uma origem boêmia e marginal. Não é a toa que a Semana de Arte Moderna de 1922 foi tão chocante, pois em vez tentar criar uma cultura europeizada do Brasil, os artistas se voltam para os índios, para os negros e para a cultura popular, ou seja, aceitaram a cultura que já existia no país em vez de forjar uma cultura artificial e importada da Europa.

Em vez de apelar para o cinismo e tentar inventar um Brasil que não existe apenas “para gringo ver”, o cineasta Fernando Meirelles optou por mostrar a cultura e o Brasil de muitos em vez de um Brasil de poucos. Há quatro anos, quando o Brasil realizou uma pequena apresentação na cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Londres, o público na internet se mostrava preocupado com a imagem que o Brasil iria passar. A apresentação não foi muito diferente da cerimônia de abertura do Rio: teve samba (Seu Jorge e o gari Sorriso), teve MPB (Marisa Monte), teve rap (BNegão), teve uma modelo internacionalmente famosa (Alessandra Ambrósio) e como não podia deixar de ser, teve futebol (Pelé). Com exceção de Marina Monte de Alessandra Ambrósio que representam elementos mais próximos da elite, os demais são absolutamente populares (isto é, do gosto da população mais pobre).

Nas semanas que antecediam a cerimônia de abertura, as críticas ao Brasil foram mais fortes a partir do momento que os atletas chegaram à Vila Olímpica e se depararam com apartamentos sem o devido acabamento. A Delegação da Austrália foi a primeira a chegar e a se queixar, tendo uma resposta irônica do prefeito Eduardo Paes de que “colocaria um canguru na porta do prédio da delegação”. Seguidamente, outras delegações realizaram as mesmas queixas. A preocupação com o zika vírus também se deu através da desistência de atletas do golfe, no uso de telas de dormir e repelentes por atletas da China, e de uniformes especiais da Coreia do Sul. Tais queixas e preocupações tem feito alguns brasileiros sentirem vergonha de ser brasileiros.

Apesar das preocupações, protestos contra Temer, reclamações das delegações estrangeiras e do receio de que a cerimônia fosse um vexame, ela não foi. Pelo contrário, não houve nenhuma falha na apresentação, arrancou elogios da imprensa internacional e o estádio cantou junto músicas populares como País Tropical e Deixa A Vida Me Levar.

As Olimpíadas nos mostram a imagem que os brasileiros têm de si. O Brasil reclama muito do próprio país, critica a falta de “bom gosto” e rejeita tudo o que tiver uma origem marginal. Critica a política, mas ou possui uma visão muito fundamentalista ou simplesmente não se importa. Por outro lado, há também brasileiros patrióticos que amam o país e sua cultura, apesar dos problemas, e os fanáticos que levantam a bandeira da ditadura militar.

E o que os estrangeiros pensam sobre o Brasil?

Os brasileiros ainda possuem uma obsessão muito forte sobre o que os estrangeiros pensam ou deixam de pensar sobre o nosso país, preocupação que data desde o Brasil Império. No entanto, dentro desta obsessão, muitos brasileiros, independentemente de classe social, olham para os Estados Unidos e a Europa como referencial de civilidade e desenvolvimento. Tudo o que seja produzido no próprio Brasil é menosprezado, é inferiorizado, é “motivo de vergonha”. Ao se mirar nos Estados Unidos, desconsideram que este país, assim como seus vizinhos latino-americanos, queria se livrar da influência política, econômica e cultural da Europa. Hoje os Estados Unidos influenciam mais a Europa do que o contrário, então por que o Brasil não pode aceitar a própria cultura?

Comportamentos que simbolizam essa rejeição do brasileiro pela própria cultura se viam na preocupação pela presença das cantoras Anitta, Ludmilla e Karol Conka. Gêneros musicais como o funk e o sertanejo universitário, por exemplo, esbarram no conservadorismo até dos mais jovens, que cresceram sendo ensinados que nada que o Brasil produz é de boa qualidade. O jornalista e "fiscal do bom gosto" William Waack, ao entrevistar Anitta após a cerimônia de abertura, demonstrou preocupação com a “imagem que o Brasil tem lá fora” ao tentar insinuar que Anitta estaria em uma categoria inferior à Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em resposta, ela diz que a música passa por renovações.

Neste domingo, o site UOL publicou uma reportagem sobre a reclamação de alguns atletas diante do fervor da torcida brasileira, ao vaiar adversários e não fazer silêncio em competições que exigem concentração, como a esgrima. Algo que a imprensa ainda não abordou e nem criticou é a postura arrogante de alguns atletas estrangeiros em relação ao Brasil, pois eles desconsideram que estão em um país completamente diferente do deles em termos culturais e sociais. Se procurassem entender um pouco melhor da cultura brasileira, saberiam que embora o brasileiro costume ser muito crítico do próprio país, ele se ofende quando um estrangeiro se acha na liberdade de fazer o mesmo.

Enquanto o brasileiro normalmente é gentil e hospitaleiro com os estrangeiros (especialmente se forem brancos e europeus), mais do que com os próprios brasileiros, ele tem uma probabilidade maior de sofrer xenofobia principalmente nos países que mais tenta agradar. Isto revela que o brasileiro, além de superiorizar as outras culturas, se submete aos caprichos e a arrogância de alguns estrangeiros mesmo dentro do próprio país.

Qualquer estrangeiro que vá para um país diferente do seu, deve ter a prudência de conhecer um pouco da cultura do outro para que não cometa gafes ou não seja desagradável. Em relação ao Brasil, alguns atletas não tiveram a menor preocupação em entender a cultura local e serem cordiais. A preocupação exagerada com o zika vírus através das desistências, das telas para dormir e as roupas especiais são um símbolo do deboche para com os brasileiros. A mudança do tom da Delegação da Austrália em relação à Vila Olímpica pode ter sido uma tentativa de desfazer uma má impressão inicial. Por ter sido a primeira a fazer críticas ao Brasil, desconsideraram o fato de que ganhar a antipatia do país anfitrião nunca é bom, especialmente em um país que ama e se ofende fácil como o Brasil.

Embora possa prejudicar na concentração, os atletas deveriam ter a ciência de que o Brasil não é uma potência olímpica e não costuma ganhar muitas medalhas, portanto sua torcida vai torcer, sim, para os seus atletas. Os ingressos não são baratos, as obras foram superfaturadas e eles ainda esperam que os brasileiros não torçam e fiquem em silêncio como se estivessem em um funeral? Além disso, é como se quisessem impor ao Brasil um modelo ideal de como se deve torcer, mais uma vez desconsiderando a cultura local. Não é a primeira vez que isso acontece: é só lembrar das vuvuzelas que foram controladas na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, após as críticas estrangeiras.

Os brasileiros precisam aprender a ter orgulho do próprio país e se desprender do referencial estrangeiro que nutre a nossa tradicional síndrome de vira-latas. Precisam compreender que cultura não se resume a tudo o que uma elite dita o que é bom e o que é ruim com seus fiscais do bom gosto, muito menos que é tudo que venha de fora. A cultura vai além dos gostos do europeu nostálgico e depressivo do século XVIII. Também precisam compreender que aquilo que é rotulado como “cultura” ou algo de “bom gosto”, nem sempre é uma invenção das elites, mas muitas vezes uma apropriação de algo extremamente popular e marginal que sofre um processo de gentrificação (ou “gourmetização”), como o samba e a cachaça.

Também precisam aprender a se impor diante do comportamento arrogante de estrangeiros de modo geral. Da mesma forma que eles esperam que o brasileiro se adeque aos seus costumes quando no país deles, os estrangeiros não precisam se adequar à cultura brasileira, mas devem ser, no mínimo, respeitosos. As reclamações da Vila Olímpica eram legítimas porque eram problemas que existiam, no entanto, alguns veículos da imprensa internacional fizeram um alarde que escancara preconceitos com o Brasil ao chamar a cerimônia de abertura como cínica ou noticiar insatisfações pesadas e roubos. O Brasil é cheio de problemas e nós sabemos disso, no entanto, não sofre com atentados sofisticados como muito “país civilizado” por aí.

É importante que os brasileiros reconheçam as suas falhas e os seus problemas, mas é preciso desenvolver a autoestima ao parar de inferiorizar o que vem de dentro e a supervalorizar o que vem de fora. Além disso, precisam ter discernimento em relação ao modo como os estrangeiros veem o país: nem todos são um exemplo de cultura e civilidade e, também precisamos parar de dizer amém para o comportamento arrogante e preconceituoso de determinados atletas e veículos de imprensa internacional.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Lições da crise



Enquanto não houver reflexão alguma, seremos o eterno país do futuro que persiste em repetir o seu passado há mais de 500 anos.

Não tirar lições do passado é perpetuar os problemas no futuro. Essa é a história do Brasil: um ciclo de políticos populistas que adotam medidas heterodoxas sendo substituídos, muitas vezes pelo uso da força, por políticos que adotam medidas ortodoxas às custas do sacrifício das camadas sociais mais pobres. Mais uma vez, a história se repete. É como se tivéssemos voltado ao ano de 1964 quando os militares tomaram o poder, em um clima de intensa polarização política a respeito do que ocorre hoje.

O grande problema é que tanto o povo quanto a elite intelectual partidária não leva a história do Brasil a sério, possui pouco conhecimento de política e economia, pensa no curto prazo e não pensa no interesse nacional, mas sim no interesse da classe da qual faz parte. O Brasil nunca se encaixou dentro do conceito de Estado-nação, pois apesar de termos um Estado consolidado, a nação brasileira nunca chegou a existir. A construção da nacionalidade é problemática, pois os brancos chegaram depois dos índios que já viviam no país e se autointitularam os “descobridores” de uma terra da qual, imediatamente, usurparam. Escravizaram estes índios e, posteriormente, trouxeram negros escravos da África uma vez que os índios resistiram à escravidão e eram fisicamente menos resistentes ao trabalho pesado e às doenças trazidas pelos europeus. Desta forma, tivemos um país onde os brancos não viam índios e negros como iguais, mas inferiores, visão que perdura até os dias de hoje, apesar de mais da metade da população ser miscigenada.

O nacionalismo no Brasil nunca deu certo apesar dos esforços durante a proclamação da República através da construção de uma identidade nacional, um sentimento que poderia unir a todos. O mesmo ocorreu de forma passional durante a ditadura militar (1964-1985), mas mostrando que “todos os brasileiros são iguais, mas uns brasileiros são mais iguais que os outros”, readaptando a famosa frase de George Orwell em “A Revolução dos Bichos”.

Não é só o racismo que mina o ideal da identidade nacional e a busca pelo interesse nacional, mas principalmente a estrutura que se formou onde o país é dividido mais socialmente do que racialmente. Para muitos, os privilégios de um grupo social é justificável porque estes “têm méritos”, ou porque “se esforçaram para isso”, o que é um pensamento muito forte tanto entre os privilegiados que nasceram e cresceram dentro de condições que o permitiram prosperar e manter sua posição social, do que entre aqueles que aceitam a sua condição de subalternidade, entendendo que, se não sobem de classe social, é porque não se esforçam o bastante. É como se vivêssemos em uma sociedade de castas, onde quem é pobre morre pobre e quem é rico morre rico. Logicamente, há exceções: alguém que nunca precisou se esforçar e realizar sacrifícios na vida pode se deixar levar por seus prazeres e comprometer uma estrutura de privilégios herdada de seus antepassados, como empresas familiares. Da mesma forma, a ambição, a criatividade e a ousadia podem garantir a um indivíduo que nasceu pobre consiga ascender socialmente.

Estes fatos, no entanto, são rotulados como “discursos da esquerda”, onde a classe privilegiada é cínica e ignora estes privilégios e preconceitos. O Brasil sempre procurou copiar, primeiramente, o modelo de vida europeu: seus costumes, sua cultura, seus valores e, desde a I Guerra Mundial, a referência se tornou os Estados Unidos e sua cultura consumista. O que é problemático é que o Brasil toma como referência os países desenvolvidos sem considerar como eles chegaram a este estágio. A democracia britânica não se consolidou do dia para a noite, mas demandou muita luta da classe trabalhadora. E se falarmos em classe trabalhadora no Brasil, a visão que se tem tanto entre a classe média quanto entre a classe trabalhadora de fato é: “um bando de comunistas, de marxistas de petralhas, de corruptos”, e outros clichês. É contraditório que tanto os políticos quanto os próprios trabalhadores defendam os “trabalhadores”, ao mesmo tempo em que, para eles, o termo trabalhador possui uma imagem muito ligada aos valores e ideais tradicionalmente associados a Karl Marx e à esquerda. O Brasil desconsidera a história destes países para entender como eles chegaram ao patamar de país desenvolvido de hoje. Muitos brasileiros desejam copiar o American way of life desconsiderando também que este país possui problemas sérios de racismo, de chacinas provocadas pelo fácil acesso às armas e onde todos os serviços são privados. A ideia da nacionalidade é culturalmente muito forte: não há um filme onde não se veja a bandeira dos Estados Unidos e, apesar da divisão do país entre republicanos e democratas, a população não é adepta da autossabotagem como nós, brasileiros. Por outro lado, a população dos Estados Unidos precisa pagar pela sua educação e a sua saúde – e não paga barato. No Brasil, mesmo que o SUS esteja muito longe do sucesso do modelo britânico, cedo ou tarde as pessoas são atendidas apesar da demora, e apesar do ensino fundamental e médio público serem sofríveis, o Brasil possui algumas universidades públicas de alto nível.

O grande problema do Brasil é essa miopia na hora de resolver os seus problemas e decidir o seu futuro. Não existe um compromisso dos políticos em criar projetos de longo prazo porque isto não dá voto, principalmente se for para investir em creches e escolas de nível fundamental. Além disso, os resultados de um investimento sério em educação demoram para aparecer e a população desenvolve a impressão de que nada foi feito, ou não de maneira eficiente. Um projeto sério em educação básica dificilmente apresenta resultados em menos de 20 anos, desta forma, os políticos preferem investir no acesso ao ensino superior e em projetos universitários porque é criada uma imagem de “igualdade no acesso de oportunidades” entre a população negra e mais pobre*. No entanto, poucos projetos são voltados ao que realmente gera riqueza: inovação e tecnologia. E as habilidades necessárias para tal demandam um conhecimento em áreas nas quais os estudantes dos níveis básicos de educação apresentam as suas maiores dificuldades: matemática, física, química e biologia. Sabemos, no entanto, que educação não é a prioridade da população, que entende que a segurança e a saúde são problemas muito mais urgentes. Tanto a população quando seus políticos estão mais preocupados em combater a violência do que preveni-la, desta forma, não é a toa que pautas como o acesso às armas, contestação dos direitos humanos e redução da maioridade penal sejam mais debatidos na esfera pública do que qualquer projeto educacional.

Outro grande problema é essa polaridade de esquerda e direita como se seus ideais fossem sempre, necessariamente excludentes e como se uma visão representasse o bem e a outra, o mal. O desejável é que indivíduo nenhum adote qualquer visão como uma verdade universal, mas tenha senso crítico para identificar o que é viável e o que não é de aplicabilidade para cada cenário em cada uma das visões. Não é heresia aceitar que há pautas defendidas pela esquerda que podem ser positivas e dar certo, e o mesmo pode se dizer da direita. Na cabeça de muitos, ou você é esquerda ou é direita e é um pecado mortal flertar com algumas pautas da vertente “inimiga”, já que esta polaridade é muito fervorosa, quase religiosa. É como se alguém temente a Deus duvidasse de sua existência, ou pensasse que Deus sofre de transtorno bipolar (ora é amoroso, ora é mau e vingativo) e, por causa desses pensamentos, sentisse culpa e medo de ser enviado para o inferno.

A história e a formação cultural e econômica do Brasil não são idênticas às das nações europeias e dos Estados Unidos, desta forma, um projeto de desenvolvimento nacional deve ser pensado considerando a nossa história, a nossa formação cultural e econômica e o interesse nacional. É difícil pensar em interesse nacional quando a identidade nacional não existe, já que não se pensa no bem comum dos brasileiros como um todo, mas de alguns brasileiros apenas.

A atual crise política desconstruiu uma imagem imaculada/mítica do ex-presidente Lula e de seu modelo de desenvolvimento econômico. A cultura de corrupção do PT, antes tolerada porque a economia estava bem, agora é alvo de protestos constantes e a principal razão para defender o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Obviamente, os adversários de Lula, Dilma e do PT não são santos e são tão corruptos quanto. Assim como eles, têm sede pelo poder e o que muda de fato são os seus discursos: enquanto o PT alerta que os pobres irão sofrer mais (e não deixam de ter razão), a oposição advoga que é preciso cortar gastos e controlar a inflação para recuperar a economia e, então, gerar empregos.

Não existe solução ótima quando falamos em economia: medidas ortodoxas racionalizam os gastos do governo e preparam o terreno para os investimentos internacionais e a estabilidade econômica (que reflete na estabilidade política). O preço disso é que os mais pobres sempre acabam arcando com um percentual muito alto de sua renda para pagar impostos e o crescimento é baixo. Medidas heterodoxas podem promover um crescimento rápido da economia, distribuição de renda, diminuição do desemprego e aumento no poder de compra. Que maravilha, não? No entanto, se for conduzida de maneira irresponsável – como geralmente é – gera o aumento da dívida pública e o aumento da inflação. Alguém vai ter que pagar esta dívida. Serão os bancos ou o trabalhador comum? O trabalhador comum, é claro! Desta forma, são tomadas medidas ortodoxas, que normalmente causam desemprego. Podemos identificar medidas típicas dos presidentes Fernando Henrique, Lula e Dilma apenas neste parágrafo. As medidas econômicas aplicadas por Dilma no ano passado deram força ao processo de impeachment uma vez que a população retirou o seu apoio à presidente afastada quando os preços da energia elétrica, da gasolina e dos alimentos subiram rapidamente. Somado a isso, a campanha anti-PT ganhou força através de denúncias maciças contra o partido e a figura mítica de Lula através da Operação Lava Jato, exaustivamente noticiada nas principais emissoras de TV e mídias impressas.

Seria apenas um caso de perseguição se nada de ilegal e antiético tivesse ocorrido. Apesar de o impeachment ser questionado pelos poucos que defendem o PT, ou a Constituição, os deputados, senadores e a população em geral não são favoráveis ao retorno da presidente Dilma, o que não quer dizer que morram de amores por Temer e seus aliados que são tão corruptos quanto o PT. Na realidade, houve uma cisão interna, visto que Temer foi o vice de Dilma e Eduardo Cunha apoiava o governo enquanto deixasse ele e sua conta na Suíça em paz. Os partidos que ficaram 13 anos longe do poder se juntaram aos insatisfeitos dentro da aliança encabeçada pelo PT. E não se juntaram porque são éticos, mas porque não foram convidados a participar dos esquemas de corrupção do PT. Além disso, a presença da população mais pobre contribuindo para engarrafamentos maiores nas rodovias e aeroportos, espaços tradicionalmente dominados pelos mais “ricos”, causou ressentimento da classe média que, assim como os mais pobres, é sobrecarregada pela elevada carga de impostos criados para limpar as cagadas e a corrupção do governo. Mesmo que se sinta superior aos mais pobres, a classe média está no mesmo barco que eles, pois a classe que o governo quer defender é a dos superricos com suas megaempresas que financiam suas campanhas, categoria na qual nem eles e, muito menos os mais pobres, se encaixam.

É por estas razões que os brasileiros precisam refletir e a questionar quem são os seus políticos e de que lado estão. Os brasileiros não precisam se unir através de símbolos forjados como uma bandeira (que é praticamente a mesma do Brasil Império), hinos ou camisas da CBF (que é uma instituição tradicionalmente corrupta). Mas devem se unir através de um interesse nacional, que pode ser facilitado quando se combate as desigualdades sociais ou quando os racistas aprenderem a tolerar que negros, índios e pobres possam estar nos mesmos espaços ou patamar social que eles. Ficar se xingando de coxinha e de petralha, de ficar farejando “doutrinação” em textos acadêmicos e reportagens, ficar defendendo seus políticos como seres acima do bem e do mal, entender que todo pobre é eleitor do PT porque recebe Bolsa Família ou que todo artista critique o golpe/impeachment porque é beneficiado pela “Bolsa” Rouanet é míope, é estúpido e é egoísta. A maioria da população, que é a que mais sofre com a instabilidade econômica e política, pratica autossabotagem ao brigar entre si, sendo que, na realidade, existe um grupo muito pequeno de políticos e empresas que está muito bem, obrigado, e com um exército de militantes idiotas se matando e os defendendo.

Enquanto não houver reflexão alguma, seremos o eterno país do futuro que persiste em repetir o seu passado há mais de 500 anos.
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* No Brasil, a responsabilidade pelo ensino superior é do Governo Federal, enquanto a educação básica é de responsabilidade dos municípios, tal como a saúde, mas constantemente possuem problemas de disponibilidade de recursos. Diante disto, se tornam dependentes da burocracia estatal para captarem verbas dos estados e da União.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O poder de uma #hashtag



De demonstração de amor das Beliebers a uma ferramenta que inspira revolução. Quais são os poderes de uma hashtag e as ilusões no seu uso?

O que é uma hashtag? Hashtag é uma palavra que vem da combinação das palavras “hash” (o nome do símbolo “#”, que é popularmente conhecido no Brasil como “jogo da velha”) e “tag” (marcação, na linguagem da internet), assim, é uma palavra-chave, tópico ou informação relevante composta e precedida pelo símbolo “#”. No Brasil, elas se popularizaram a partir do microblog Twitter por volta de 2009, período no qual o cantor Justin Bieber começava a se tornar famoso e constantemente figurava no topo dos Trending Topics ou TTs (assuntos mais comentados) a partir de hashtags relacionada a ele.

Ok, mas para o que servem as hashtags? Com a popularização delas no Twitter, outras redes sociais começaram a adotá-las, como o Instagram e o Facebook (onde as pessoas já utilizassem antes disso, embora inutilmente porque não estavam ativadas). Ao inserir uma hashtag (“#” + palavra), estes sites criam um hyperlink que, ao clicar nele, apresentará uma listagem das postagens públicas de seus usuários sobre aquele tema. Por exemplo, se que você tira uma foto ou escreve uma publicação relacionada ao pôr-do-sol na Praia de Cobacabana, você poderia utilizar hashtags como #pôrdosol e #praiadecopacabana, podendo ignorar as letras maiúsculas e minúsculas, acentuação e hífens muitas vezes. Ao clicar em #praiadecopacabana, o site que cria um hyperlink a partir das hashtags irá listar várias postagens públicas dos usuários que utilizaram esta hashtag. Então você pergunta: ok, e daí?

Se inicialmente o uso das hashtags no Brasil era mais inocente e coordenado pelas fãs de Justin Bieber, com o passar do tempo elas passaram a se tornar um instrumento de coordenação política, não necessariamente para debater ou apoiar o político ou pauta A ou B, mas para dar visibilidade a temas que, até então, eram restritos a determinados círculos sociais. Embora o movimento feminista tenha surgido nos anos 1960 (o que não quer dizer antes disso o feminismo não existisse), hashtags relacionadas podem facilitar o encontro entre feministas no ambiente virtual, e também de seus críticos. Dependendo da quantidade de vezes que uma hashtag é citada, ela pode aparecer nos TTs do Twitter, o que dá visibilidade ao que ela quer dizer.

Nas últimas semanas, os assassinatos de cidadãos negros têm gerado revolta nos movimentos de defesa dos negros e seus apoiadores neste país e fora dele. A hashtag que se tornou “lema” desta revolta foi #BlackLivesMatter (tradução: a vida dos negros importa). Figurando nos TTs, pessoas que desconhecem o que esta hashtag quer dizer podem ficar curiosas e pesquisar sobre, ou ainda, uma hashtag pode sinalizar às autoridades a questão do assassinato de negros motivados por racismo. Ou seja, além de simplesmente catalogar imagens ou postagens sobre determinado assunto, como um simples #pôrdosol, as hashtags também possuem a finalidade de chamar a atenção para determinado assunto sobre o que elas estão fazendo (assistindo o #TheVoice) ou querendo (#ForaDunga, #NãoVaiTerGolpe).

Os eventos da Primavera Árabe, uma série de revoluções políticas iniciada em 2010 no norte da África, espalhando-se depois para o Oriente Médio, mostraram que as redes sociais, como o Facebook, tinham o poder de mobilizar as pessoas em prol de uma determinada causa. Tunísia, Argélia, Egito, Iêmen e Líbia tiveram seus líderes depostos ou mortos, e a Síria vive uma guerra civil que dura até os dias atuais devido à resistência do presidente Bashar Al-Assad em se manter no cargo. O poder de mobilização do Facebook facilitou outros tipos de protestos das populações de outros países. O efeito não foi o mesmo, afinal de contas, uma coisa é quando uma ditadura obriga as pessoas a se unir em massa em prol do mesmo objetivo, enquanto em regimes democráticos a união é difícil, pois há múltiplos interesses que se chocam entre si. Os políticos podem até dar uma atenção maior às redes sociais, pois facilita a identificação das suas demandas, mas em países como o Brasil nenhum deles temerá nem pelo seu cargo, muito menos pela sua vida.

Uma hashtag não é nada sem ação e a própria Primavera Árabe mostrou isso, pois o Facebook combinou o desejo por democracia em países que vivam sob regimes ditatoriais (houve união em prol desse objetivo) com ação (a população realizou os protestos ou pegou em armas). O Brasil carece de uma demanda que una a população em prol de uma causa. As demandas das manifestações de 2013 começaram com o aumento das passagens no transporte público em São Paulo e depois se tornaram mais gerais, pedindo qualidade nos serviços públicos, o que não foi nenhuma novidade, pois as pautas eram exatamente as mesmas de toda e qualquer eleição no Brasil. Como inicialmente houve ação, a presidente Dilma propôs um pacote de medidas para atender estas demandas, mas sem consultar a população efetivamente. Depois disso, os protestos diminuíram e adotaram um viés partidário (a favor ou contra o impeachment) e as ações se resumiram às hashtags nas redes sociais.

Várias hashtags com um viés revolucionário e profético não se confirmaram. Diante das exigências de uma instituição comprovadamente corrupta como a FIFA, e da submissão do governo à elas, uma parte da população se revoltou, pois a FIFA tinha um poder coercitivo sobre o governo maior do que a própria população que o elegeu (e reelegeu em 2014). A FIFA e a Copa do Mundo passaram a ser alvo dos protestos em manifestações e através da hashtag #NãoVaiTerCopa. Teve Copa e não aconteceu nada que comprometesse a realização da competição do início ao fim. Desta vez, não há nenhum movimento para impedir a realização das Olimpíadas. Não existe uma hashtag em prol disso como #NãoVaiTerOlimpíada ou suas variantes. O máximo que as pessoas podem tentar impedir é a passagem da chama de uma tocha para a outra ao tentar apagá-la com água ou extintores de incêndio, mas como abordado no último post, isto é inútil.

Outra hashtag profética e revolucionária que não se concretizou foi #NãoVaiTerGolpe. Teve golpe/impeachment e, se ele existiu, foi justamente pela falta de ação popular em prol disso. Apesar da guerra que ocorreu nas redes sociais entre pessoas que eram favoráveis e contrárias ao impeachment, os deputados puderam votar “sim” ou “não” na maior tranquilidade como, ainda, utilizaram do seu espaço ao vivo na televisão como palanque de campanha através de seus discursos populistas como “em nome da minha família, eu voto sim”. A votação do impeachment no Congresso era para julgar a presidente Dilma Rousseff por ter cometido, ou não, crime de responsabilidade fiscal, e não uma consulta de satisfação com o seu governo.

Desta forma, não adianta usar excessivamente a hashtag #ForaTemer como se o presidente interino fosse renunciar de sua posição se, eventualmente, figurar no top dos TTs do Twitter. Ele não cortar os pulsos ou se suicidar se jogando do alto do Palácio do Planalto. Tampouco fará os deputados e senadores se mobilizaram para tal porque a população está pedindo na forma de hashtags. Se as hashtags em si, carregam pouca efetividade prática, estão se tornando cada vez mais banais e idiotizadas. Foi o caso que ocorreu recentemente quando alguém disse que seu nome era “Fora Temer” a um funcionário do Starbucks, que ficou chamando pelo cliente “Fora Temer”. O cliente filmou, expôs o funcionário ao ridículo e se achou muito engraçado.

No Brasil, os políticos não possuem o receio de perderem seus cargos, pois sabem que a população os reelegerá, até mesmo porque muitos votam e nem lembram em quem votaram. Além disso, sabem que os protestos são sempre pacíficos e quando alguém se exalta um pouco e depreda o patrimônio público, esta pessoa é detida por uma política adestrada para ser repressiva. Os políticos não sentem medo da população porque sabem que serão reeleitos e que os protestos não comprometem a sua integridade física ou de sua família. A única ameaça aos políticos são os próprios políticos.

As hashtags, então, seguem a seguinte lógica para quem as utiliza como forma de campanha ou denúncia: 1) faz-se a denúncia através das redes sociais, 2) as pessoas curtem e compartilham a publicação, 3) esta publicação ganha tanta repercussão que chama a atenção da imprensa, 4) a imprensa faz uma reportagem, 5) os políticos, numa atitude habermasiana, entendem que esta é uma demanda legítima da população; se for uma denúncia, a justiça a leva em consideração 6) os políticos acatam a demanda e criam uma lei; no caso de uma denúncia, as autoridades investigam e punem. No entanto, sem ação e sem uma ameaça da não-reeleição/deposição ou da violência, as hashtags serão inúteis e um símbolo de frustração, portanto não adianta compartilhar 30 reportagens por dia denunciando os atos do deputado X ou Y no Facebook, usar hashtags como #ForaTemer à exaustão ou expor funcionários do Starbucks ao ridículo ao forçá-los a proferir hashtags como se fossem nomes de cliente. Teve Copa, teve golpe e Temer só dará o fora se os nossos políticos assim o desejarem, independente de qual seja o desejo da população adepta ao uso das hashtags.